Cássio Loredano
Cássio Loredano

Leia trecho do livro 'Senhorita Christina', de Mircea Eliade

"Passado bastante tempo, Ígor percebeu que estava havia muito de olhos abertos, sem pensamentos, sem memória. Lembrou-se de repente de Christina. “Despertei ao seu comando”, compreendeu Ígor. Sabia exatamente onde a deixara no sonho: ereta no meio do quarto, fitando-o com seus olhos vítreos. Virou a cabeça num gesto brusco. Senhorita Christina não estava mais ali. “Então foi um sonho, foi apenas um sonho”... O sangue pôs-se a correr de todas as partes até seu coração. Um encantamento cansado envolveu em seguida a sua carne; como se tivessem vencido uma árdua batalha, os músculos se preparavam para descansar.

17 de dezembro de 2011 | 03h00

No quarto, contudo, persistia o perfume de violeta. Alguns instantes depois, Ígor começou a sentir algo, invisível e desconhecido, perto de si. Não era a presença da senhorita Christina. Sentia-se observado por outra pessoa, cujo terror jamais sentira. O medo era agora de outra natureza; como se houvesse despertado dentro de um corpo alheio, cuja carne, cujo sangue e cuja transpiração gelada – que ele sentia mas que não eram dele – repugnavam. A opressão desse corpo alheio era insuportável. Sufocava-o, sorvia-lhe o ar, exaurindo-o. Alguém o observava ao lado, muito perto dele, e esse olhar não era o da senhorita Christina."

SENHORITA CHRISTINA

Autor: Mircea Eliade

Tradução: Fernando Klabin

Editora: Tordesilhas

(182 págs., R$ 69,90)

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