Leia trecho do livro 'Sejamos Todos Musicais'

Um futuro sem solistas

25 de fevereiro de 2014 | 18h49

"...Se a valorização do mais hábil se sistematizar, o trabalho de recolocação da música em seus mais exatos princípios será mais lento e sempre prejudicado pelo ideal de predomínio no espírito das crianças. E de seus pais, o que é pior! Só aos indivíduos adultos, bem orientados desde a infância, o elemento solístico não prejudicará. E creio ainda que, no caso de utilização de solistas, se deverá sempre cuidar que estes toquem com música na frente.

O vício de tocar exclusivamente de cor é concomitante da decadência musical, que trouxe a divinização da virtuosidade na civilização contemporânea. Seria utilíssimo que se voltasse ao costume de ler música nos concertos.

Tocar de cor é, socialmente falando, uma desonestidade moral. De um lado o artista, que corre o perigo de esquecer, encara a execução e o seu público como barreiras que ele terá de vencer, e não de apenas conduzir para um

ideal artístico de prazer comum. O artista abdica do seu prazer, trocando-o pela volúpia desonesta de uma vitória a conquistar. E disto derivam falsificações e cabotinismos inumeráveis. Por outro lado, a assistência é mais levada a admirar que a escutar. Encara o virtuose como encara um jogador de boxe. Não é mais uma assistência que comunga na arte, mas que torce por um lutador. E

geme na torcida! (...)"

O Salão da Escola Nacional de Música regurgitava de ouvintes, pp. 119-123

 

O ENSINO DA MÚSICA

"A educação musical é porventura das mais defeituosas entre nós. Ou deficiente por demais nos grupos escolares, ginásios e universidades, ou egoistamente virtuosística nos conservatórios. Nem tanto nem tão pouco. A música, como aliás qualquer disciplina, tem de ser ensinada o bastante para que qualquer um a possa fazer suficientemente boa, de forma a que ela se possa tornar uma expressão, uma constância vital do ser, tanto individual como social. A melhor, a mais profunda e verdadeira música, a que não desmente as suas origens nem mente aos seus ideais, não será nunca a que se faz no palco, mas a que se faz nas escolas, nos clubes, nos lares, nos bairros, nos templos. A criança que se acostuma à execução coletiva é o ser preparado para esta mais verdadeira música. Porque ela recebe desde o início a música como elemento de vida. E não de subsistência, com se faz entre nós…"

O Salão da Escola Nacional de Música regurgitava de ouvintes, pp. 119-123)

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