Leia trecho do livro 'Opisanie Swiata', de Verônica Stigger

Romance, que venceu prêmio da Fundação Biblioteca Nacional, é ambientado na Amazônia

O Estado de S. Paulo,

16 de dezembro de 2013 | 17h45

"Querido pai,

não me sinto bem. Já faz um mês que não caminho e não consigo ficar muito tempo sentado na cama, à qual estou confinado desde os primeiros meses do corrente ano. Não lembro mais como é estar a uma mesa para almoçar ou jantar e tenho alguma dificuldade para respirar. Sinto dores por todo o corpo, em especial nas pernas e nos braços. Segurar a caneta para escrever exige de mim um grande esforço. Por essa razão, dito esta carta. Os médicos não sabem o que pode ter me acometido, e os remédios já não dão conta de aliviar meu sofrimento. Meus poucos amigos não têm me visitado com a regularidade com que vinham nos primeiros tempos da doença. Mamãe, como o senhor já deve saber, pereceu há dois anos. Por sorte, não chegou a sofrer com minha enfermidade, que se manifestou pela primeira vez no verão passado. Estou sozinho e muito debilitado.

Preso a esta cama, não tenho pensado em outra coisa senão em encontrá-lo. Sinto uma vontade cada vez maior de, enfim, conhecê-lo. Pedi que comprassem a passagem para o senhor vir me ver, já que não tenho condições de sair de onde estou. O senhor terá apenas de ir até o porto para pegar o navio. Sugiro que vá até lá de trem. Não pense em enfrentar uma desnecessária viagem de barco. Traga consigo um paletó de inverno. Embora aí seja verão, pode haver noites frias no navio. Aqui na floresta, como é de seu conhecimento, faz calor o ano inteiro. E chove muito. Por isso, traga também a gabardine. O guarda-chuva o senhor pode deixar em casa, pois os tenho aos montes.

Não preciso dizer-lhe que aqui não se usam as mesmas roupas que aí. O senhor sabe que nem os maiores magnatas daqui vestem roupas de lã. Preferem a percalina. Se o senhor tiver fatiotas de percalina, não hesite em trazê-las. Se tiver camisas de seda, também. É sempre bom ter um par delas para não descuidar jamais da elegância. Traga consigo o relógio e, se achar conveniente, o travesseiro. Os travesseiros alheios nunca são como os nossos. Guarde o relógio dentro do travesseiro, para não quebrar.

Considere a possibilidade de permanecer aqui comigo alguns dias ou, talvez, alguns meses. Assim, traga tudo o que lhe é caro. Só não precisa trazer dinheiro. Eu não tenho muito, mas tenho o suficiente para nós dois. Não se preocupe com isso. Preocupe-se em carregar apenas seus pertences. Se o senhor quiser trazer sua arma, traga-a. Se o senhor tiver também uma faca, porte-a consigo. Não creio que se utilizará delas ao longo da viagem, mas é sempre bom andar precavido. As armas aqui são caras, principalmente as de fogo. São mais caras que aí. Não sei se o senhor gosta de jogar cartas. Se sim, tenho baralhos aqui. Não se apoquente com isso. Livros, eu também os tenho, tanto de literatura quanto de ciência. Tenho muitos relatos de viagem. Comprei-os aos montes. Mamãe me contou que o senhor gostava de viajar.

Aliás, estão comigo os livros que o senhor deixou aqui. O senhor certamente ficará feliz em revê-los. Em suma, pense em tudo o que lhe é essencial e traga. Há espaço de sobra na minha casa, embora ela não seja grande. É a casa que era de minha mãe e que fora de meus avós. Não sei se o senhor se lembra dela. Fica na mata, numa clareira, entre castanheiras.

Depois de separar tudo o que lhe importa, compre um baú e acondicione tudo nele. Creio que é a melhor forma de trazer suas coisas. Sobre o baú, escreva com letras grandes, em tinta preta, de preferência a óleo, para que não se apague: Sr. Opalka. Se não der tudo dentro de um único baú, compre outro. Pinte em cima de cada um: Sr. Opalka. E os numere: escreva Nº. 1 para o primeiro baú e Nº. 2 para o segundo. Traga ainda uma valise de mão ou uma sacola.

A viagem de navio é demorada. É preciso, pois, ter por perto algumas mudas de roupa. O senhor sabe: não se pode viver por mais de uma semana com uma camisa só. Não esqueça também de carregar consigo uma cesta. Compre uns dez limões, um saco de açúcar, um pouco de chá. Eles podem ser úteis no navio. Quando o senhor estiver com ânsias, pegue um limão, eprema-o sobre o açúcar e tome. O senhor pode ainda fazer chá. É só pedir água na cozinha do navio.

Compre também umas duas garrafas de vinho tinto, um pouco de manteiga, pão e queijo. Embora sirvam comida em abundância no navio, é bom estar preparado. Traga também uma faca de cozinha, uma colher e um caneco na cesta, junto com os limões, o açúcar, o chá, o vinho, a manteiga, o pão e o queijo. O senhor poderá levar mais mantimentos se quiser. Há o percurso de trem, antes de chegar ao navio. Talvez seja o caso de dobrar a quantidade de tudo, menos do limão, do açúcar e do chá, que são para o enjoo.

Cuide para que seu baú não suma durante a viagem. Não o perca de vista. E fique de olho também em sua valise. Não deixe que as outras pessoas se apossem de seus mantimentos. Eu sei que a viagem é longa e demorada, mas o pior é chegar até o navio. Depois, é tudo tranquilo. Quando o navio navega calmamente, pode-se subir ao convés. Lá é mais saudável e agradável do que nas cabines. Quando o navio balança, é melhor ficar deitado na cama, porque há casos de passageiros que caem e se quebram ou machucam a cabeça.

Quanto a andar pelas escadas para subir ao convés, deve-se ter muito cuidado, porque há casos de pessoas que descem de fundilhos quando o navio oscila. O senhor não vai querer perder o equilíbrio e descer de fundilhos pelas escadas do navio, não é? Contaram-me que uma senhora machucou-se assim. Ela quebrou uma das pernas e, em três dias, estava morta. Se as camas forem do tipo beliche, jamais se deite nas de baixo. Aqueles que estão nas de cima podem vomitar na sua cabeça.

E preste atenção: durante a viagem, não escute ninguém e não deixe que o perturbem. Não faça caso do que os outros dizem. Diz-se muita besteira na solidão do oceano. Percebo agora o quão tolo posso parecer-lhe ao enfileirar tais recomendações. O senhor é um homem viajado e certamente sabe bem mais que eu da rotina e das exigências de um percurso como esse.

No porto daqui, o senhor Jean-Pierre estará lhe esperando. Ele o trará imediatamente até onde estou. Quando o senhor chegar ao hospital, será fácil saber quem eu sou: serei aquele que mais se parece consigo.

Rogo-lhe, pai, venha. Venha tão logo receba esta carta com a passagem. Aguardo-o com impaciência.

Faça uma boa viagem.

Do seu amoroso filho,

Natanael"

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