Leia trecho do livro 'O Idiota da Família', de Sartre

Trabalho monumental do francês Jean-Paul Sartre (1905-1980), que será lançado em três volumes, O Idiota da Família (L&PM) resgata a vida, o pensamento e a obra de Gustav Flaubert (1821-1880). O primeiro volume chega agora às livrarias e compreende o período entre seu nascimento e o ano de 1857. Leia a seguir o início do primeiro capítulo, intitulado: Um problema - Ler:

O Estado de S. Paulo

31 de janeiro de 2014 | 19h24

“Quando o pequeno Gustave Flaubert, perdido, ainda “bestial”, emerge da primeira infância, as técnicas estão à sua espera. E os papéis. O adestramento começa: não sem sucesso, ao que parece; ninguém nos diz, por exemplo, que tenha tido problemas para caminhar. Pelo contrário, sabemos que o futuro escritor tropeçou foi quando se tratou da prova primordial, o aprendizado das palavras. Tentaremos ver, mais adiante, se teve, desde o princípio, dificuldades para falar. O certo é que se saiu mal em outra prova linguística, iniciação e rito de passagem, a alfabetização: uma testemunha conta que o menino aprendeu a ler muito tarde e que seus familiares o tinham então por criança retardada. Caroline Commanville, de sua parte, faz o seguinte relato:

'Minha avó havia ensinado o filho mais velho a ler. Ela quis fazer o mesmo com o segundo e pôs mãos à obra. A pequena Caroline, ao lado de Gustave, aprendeu logo, mas ele não conseguia, e depois de esforçar-se bastante para compreender aqueles signos que nada lhe diziam, chorava muito. No entanto, estava ávido por aprender, e seu cérebro trabalhava... (um pouco mais tarde, o pai Mignot lia para ele) nos incidentes causados pela dificuldade de aprender a ler, o argumento final de Gustave, irrefutável segundo ele, era: ‘Para que aprender, se Papai Mignot lê?’. Mas a idade de ir para a escola se aproximava, era preciso aprender a qualquer preço... Gustave dedicou-se resolutamente e, em alguns meses, alcançou as crianças de sua idade.'

Veremos que essa relação difícil com as palavras determinou sua carreira. Alguns dirão que devemos acreditar na sobrinha de Flaubert. E por que não? Ela vivia na intimidade do tio e da avó: é desta que tira suas informações. Se lhe dermos total crédito, no entanto, seremos desviados pelo falso bom humor do relato. Caroline corta, expurga, suaviza; apesar de, por um lado, o incidente relatado não lhe parecer comprometedor, ela o retoca, abusando da severidade à custa da verdade. Basta uma leitura para encontrar a chave dessas deformações dúplices e opostas: o objetivo é agradar sem perder o tom de boas maneiras.

Voltemos à passagem que acabo de citar: não teremos dificuldade alguma em vislumbrar a verdade da ingrata infância de Gustave. Dizem-nos que o menino chorava muito, que estava ávido por aprender e que sua impotência o desolava. Depois, um pouco mais adiante, mostram-nos um preguiçoso fanfarrão, teimoso em sua recusa de aprender: para quê?, o pai Mignot lê para mim. Será o mesmo Gustave? Sim, a primeira atitude é provocada por uma constatação feita por ele mesmo: adversidade das coisas, incapacidade de sua pessoa. O Outro está presente, sem dúvida: é a testemunha, é o meio opressor, é a exigência. Mas este não provoca o pesar do pequeno, relação espontaneamente estabelecida entre os imperativos inanimados do alfabeto e suas próprias possibilidades. “Eu devo mas não posso.” A segunda atitude supõe uma relação agônica entre o filho e seus pais. Caroline Commanville conta-nos, como que de passagem, que havia incidentes; é o suficiente. Esses incidentes não começaram logo de início. Houve o tempo da paciência, depois o da aflição, por fim o da censura: no início, culpam a natureza, mais tarde acusam o pequeno de má vontade."

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