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Trecho de Herzog, de Saul Bellow (tradução de José Geraldo Couto, Companhia das Letras)

O Estado de S. Paulo, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2011 | 00h00

Poucos livros demonstram tanto os descaminhos acidentados da vida literária quanto Herzog (1964), de Saul Bellow. Cansado de escrever obras que não alcançavam o grande público, apesar do charme folhetinesco de A Vida de Augie March (1953) e Henderson, o Rei da Chuva (1959), Saul Bellow (1915-2005), que em mais de meio século de vida literária jamais assinou um livro ruim, decidiu escrever uma narrativa pessoal e inegociável cujo único leitor ideal seria apenas ele mesmo. Contudo, milhares de leitores discordaram: premiado, incensado, devorado, discutido, parodiado, Herzog tornou-se imediatamente um amado fenômeno cultural, não apenas na cultura estadunidense, mas logo em seguida em escala mundial. Doze anos após a primeira edição de Herzog, Bellow recebeu seu merecido Prêmio Nobel.

Não é difícil compreender esse imenso sucesso: Herzog é o romance em que toda a assombrosa técnica discursiva de Bellow, sua habilidade de cinzelar com as palavras, a forma inimitável com que mistura o sabor vernacular com o discurso erudito, alcança seu zênite absoluto de expressividade. E também é a obra na qual sua combalida vocação para o humor, tão recessiva em seus dois primeiros livros, e muito escancarada em Augie e Henderson, encontra o tempero ideal, o equilíbrio exato, para dissecar e dramatizar as personagens que pululariam em seus trabalhos a partir de então - intelectuais que se levam tão a sério que é evidente, para o leitor, a distância dolorosa entre o que realmente são e aquilo que, iludidos, acreditam ser, e como esse desencontro torna suas vidas tão comicamente impraticáveis. Bellow, com Herzog, entra em franco território cervantino: um humor sofisticado e triste que nasce da angústia de presenciar alguém usar uma máscara que cabe torta em seu rosto sem jamais notar esse descompasso.

No livro, a narrativa acompanha um momento muito delicado da vida intelectual e emotiva do subemotivo e ultraintelectual Moses Herzog. Ainda sob o impacto da humilhante traição de sua mulher com aquele que considerava seu melhor amigo e confidente, e sufocado por um projeto de pesquisa infindável cujos prazos se estenderam além do razoável, Herzog é um homem retalhado, fraturado, subtraído até o limite em sua confiança e autoestima. Como os protagonistas de outras excepcionais narrativas de Bellow - o isolado e misantropo Artur Sammler de O Planeta de Sr. Sammler (1970) ou o angustiado e envenenado Charlie Citrine de O Legado de Humboldt (1975) -, a argúcia e fluência de ideias e argumentos não prepara Herzog para os entraves da vida. Destituído da força necessária para pôr em prática seus planos mais imediatos - enfrentar sua ex-mulher, adquirir a guarda da filha, retomar projetos acadêmicos, escrever o final de seu livro -, Herzog trava uma batalha no campo que é seu domínio: o palco das ideias.

Em uma engenhosa estratégia narrativa, Bellow faz com que Herzog escreva cartas imaginárias, transcritas no texto em itálicos, para figuras determinantes de sua vida. Esse histriônico diálogo silencioso com seus desafetos - bastiões intelectuais, estadistas e filósofos, mas também pipoqueiros, taxistas e babás - são o ponto inexcedível do romance. É um excepcional achado estético: Herzog é algo como uma ponte entre o romance picaresco, folhetinesco, ao descrever as peripécias do protagonista em Nova York, mas também absorve o melhor do romance modernista ao acompanhar de forma tão sofisticada o mundo interior do personagem central. As cartas, ao mesmo tempo apropriação das técnicas do romance epistolar e dos discursos de fluxo de consciência, fazem de Herzog um amálgama de formas, técnicas e modalidades da história da arte do romance - um Ulisses vernacular, como já declarou Philip Roth. Bellow dá ao leitor o "corpo" de Herzog (como ele se movimenta e se veste, sua fisicalidade) e ainda constrói sua mente convoluta (os pensamentos, a maneira como tomam forma e se constroem e se completam, ou se contradizem).

O leitor, assim, tem uma experiência incomum: enquanto se diverte com os absurdos rocambolescos no quais Herzog se envolve, ele presencia uma mente macerada desconstruindo uma situação de total apatia e erigindo, a partir desses fiapos, desses pedaços de afetos estilhaçados, uma consciência completa, inteira, e até certo ponto saudável. Essa trajetória é eficaz e verdadeira: quando, em uma das mais belas páginas do romance, Herzog decide não "escrever" mais as cartas porque não tem mais o que dizer, pois está em paz com o lugar no mundo que ocupa, o leitor se sente diante de algo especial, de um momento iluminado, que só a grande literatura pode lhe ofertar: uma dimensão completa do humano, patético e pequeno, mas monolítico e gigante. Da mesma forma que a angústia de Herzog nos angustia, e sua patetice nos diverte, sua vitória diante de seus demônios comove.

VINICIUS JATOBÁ É CRÍTICO LITERÁRIO

HERZOG

Autor: Saul Bellow

Tradução: José Geraldo Couto

Editora: Companhia das Letras (400 págs., R$ 56)

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