Leia trecho do livro 'Ideologia e Contraideologia'

Alfredo Bosi analisa o declínio das filosofias do progresso numa era de desencanto

14 de maio de 2010 | 20h13

SÃO PAULO -  A Renascença entre a Crítica e a Utopia. A crítica sistemática da ligação entre discurso e poder adquire plena evidência na Idade Moderna, sobretudo a partir da luta que a cultura renascentista empreende contra a força da tradição eclesiástica e contra os preconceitos da nobreza e da monarquia por direito divino.

 

O combate acendeu-se à medida que o conhecimento científico precisou enfrentar a ditadura do magister dixit aristotélico relançada pela Contrarreforma. A ciência cumpria então o objetivo de instaurar os métodos confiáveis da experiência e da indução e os procedimentos da dedução matemática. Para tanto, era necessário dissipar a névoa cerrada dos falsos conceitos que impediam o exercício do olhar racional da nova Astronomia e da nova Física.

 

Remover o princípio de autoridade foi a tarefa que se propuseram Erasmo e Rabelais, precedidos pela perícia filológica dos humanistas italianos do século XV. Lorenzo Valla, entre outros tentos, examinou documentos medievais e desmentiu a versão canônica da doação das terras vaticanas que o imperador Constantino teria feito ao bispo de Roma. A sua análise linguística provou que o latim do diploma de doação era "bárbaro"; um texto forjado, portanto, cuja língua não correspondia ao estilo oficial romano do século IV.

 

A denúncia das correntes hegemônicas, expressa em geral em tom satírico, terá sido o primeiro passo para constituir uma noção crítica de ideologia, antes mesmo do aparecimento do termo, que é do fim do século XVIII. O Dictionnaire Étymologique de Albert Dauzat dá como seu criador o filósofo Destutt de Tracy, em 1796.

 

A ruptura de um grupo intelectual ou de um movimento político com o estilo de pensar dominante abre neste a ferida do dissenso. Um pensamento de oposição traz consigo o momento da negatividade, contesta a autoridade, tida por natural, do poder estabelecido, acusa as suas incoerências e, muitas vezes, assume estrategicamente o olhar de um outro capaz de erodir a pseudovalidade do discurso corrente. Os períodos de crise cultural engendraram a suspeita de que pode não ser verdadeiro ou justo o sistema de valores que "toda gente" admite sem maiores dúvidas.

 

Lévi-Strauss postulava a afinidade do pensamento sociológico do século XIX com a tradição crítica inaugurada por Montaigne e revigorada pela Ilustração: "Depois de Montaigne a filosofia social está sempre ligada à crítica da sociedade. Por trás de Comte e Durkheim estão Diderot, Rousseau e Montaigne. Na França, a sociologia permanecerá herdeira desses primeiros ensaios de pensamento etnográfico e, por isso, crítico".

 

As reflexões do antropólogo dão margem a revisitar uma das questões mais debatidas na historiografia das ideias: até que ponto o conhecimento dos povos da América fecundou nos escritores da Renascença e das Luzes a imagem do bom selvagem, espelho e paradigma do homem natural? Sendo afirmativa a resposta, isto é, provando-se a conexão entre os relatos encantados dos viajantes e a construção do mito do bom selvagem, impõe-se a segunda questão: até que ponto essa visão - realista ou idealizada - do homem do Novo Mundo atuou como fator de erosão da autoimagem que a cultura europeia fazia de si mesma?

 

Os Ensaios de Montaigne e a Utopia de Thomas Morus respondem a ambas as perguntas, cada um a seu modo, atestando a fratura sofrida pela consciência europeia quando se defrontou com aquele outro ao mesmo tempo estranho e belo, próximo das origens e da natureza, inocente ainda, mesmo quando "bárbaro".

 

Montaigne conheceu índios vindos do Brasil e os interrogou mediante um intérprete. O filósofo soube então que os índios estranharam a servil obediência dos franceses a uma criança (o rei Carlos IX, que os recebia). E não só: os mesmos "selvagens" indignaram-se ao ver homens maltrapilhos esmolando à porta de senhores opulentos "sem agarrarem os ricos pela garganta e atearem fogo às suas casas" (Ensaios, I, 31).

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