Leia trecho do livro 'Eu e Você', de Niccolo Ammaniti

 Coloquei os fones de ouvido e comecei a escutar um CD de papai. Era uma peça para piano que não acabava nunca, aquela música tão calma e repetitiva me dava sensação de estar longe, atrás de um vidro, como se eu assistisse a um documentário. Eu e ela não estávamos no mesmo aposento.

10 Janeiro 2014 | 16h27

Com o passar das horas, minha irmã começou a piorar cada vez mais. Tremia como se tivesse febre. Era um dique contra o qual se quebravam ondas de dor. Mantinha os olhos fechados, mas não dormia. Eu a ouvia se lamentar.

(...)

E depois eu odiava os finais. Nos finais, no bem ou no mal, as coisas têm sempre que ficar arrumadinhas. Eu gostava de contar sobre confrontos entre alienígenas e terráqueos sem uma razão, sobre viagens espaciais em busca do nada. E gostava dos animais selvagens que vivem sem um porquê, sem saber que vão morrer. Quando via um filme, detestava que papai e mamãe ficassem sempre comentando o fim, como se a história estivesse toda ali e o resto não importasse nada.

Então, na vida de verdade, também nela, apenas o fim é importante? A vida de vovó Laura não importava nada, e somente sua morte naquela clínica horrorosa era importante?

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