Leia trecho do livro 'Entre Amigos', do israelense Amós Oz

"O Rei da Noruega"

O Estado de S. Paulo

14 de fevereiro de 2014 | 19h26

E em nosso kibutz Ikhat havia um homem chamado Tzvi Provizor, solteiro, baixinho, os olhos sempre a piscar, uns cinquenta anos de idade. Ele gostava de dar mas noticias: tremores de terra, desastres de avião, prédios que ruíam cheios de gente, incêndios e inundações. Acordava cedo para ler o jornal logo de manhãzinha, antes de todos nos, e ouvia todos os noticiários do radio para poder se apresentar na entrada do refeitório e deixar você chocado com os duzentos e cinquenta mineiros de carvão que tinham sido soterrados, sem esperança, no desabamento de uma mina de carvão na China, ou com uma barcaça que virou e afundou com seiscentos passageiros numa tempestade no mar do Caribe. Perseverava também em decorar os anúncios fúnebres.

Tomava conhecimento antes de qualquer um da morte de pessoas famosas e passava a informação a todo o kibutz. Certa manha ele me fez parar no caminho diante da enfermaria.

– Você ouviu falar de um escritor chamado Vislawski?

– Sim. Ouvi. Por quê?

–Ele morreu.

– Sinto muito pela noticia.

– Escritores também morrem.

E uma vez ele me pegou quando eu estava trabalhando em meu turno no refeitório.

– Vi no obituário que seu avô morreu.

– Sim.

– E ha três anos também morreu um avo seu.

– Sim.

– Então este já foi o último.

Tzvi Provizor trabalhava sozinho na manutenção dos jardins e gramados públicos do kibutz. Ele acordava todo dia as cinco da manha, desmontava e remontava canos e aspersores, afofava a terra de canteiros de flores, plantava, podava e irrigava, aparava gramados com uma maquina barulhenta, pulverizava com pesticidas, espalhava e fazia penetrar na terra adubo orgânico e adubo químico. Trazia pendurado no cinto um radio transistor do qual extraia uma corrente perpetua de péssimas notícias:

– Você ouviu? Um grande massacre em Angola.

Ou:

– Morreu o ministro das Religiões. Deram a noticia há dez minutos.

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