Leia trecho do livro de Carlo Ginzburg, 'Medo, Reverência, Terror'

  "Após a morte de Warburg, Edgar Wind, que participara do grupo a seu redor, voltou à Maria Madalena de Bertoldo di Giovanni num breve ensaio intitulado “The Maenad under the Cross” [A mênade sob a cruz]. O ensaio iniciava com uma citação dos Discourses on Art [Discursos sobre arte] de Joshua Reynolds. Comentando um desenho de Baccio Bandinelli de sua propriedade, Reynolds notava que o artista se inspirara numa bacante “destinada a expressar uma espécie de entusiasmo frenético de alegria” para representar uma Maria sob a cruz, “a fi m de expressar uma angústia frenética de dor”, e concluía: “É curioso observar, e certamente é verdade, que os extremos de paixões opostas são expressos com pouquíssima variação pela mesma ação”. Wind notava que Warburg reunira uma documentação “que tendia a mostrar que gestos similares podem assumir signifi cados opostos”, mesmo sem conhecer a passagem de Reynolds.

O Estado de S. Paulo

24 de janeiro de 2014 | 19h00

Sobre este último ponto Wind estava equivocado. Warburg tinha conhecimento da passagem de Reynolds, por uma intervenção que nos ajuda a entender melhor a gênese da noção de Pathosformeln.

Cabe dizer que se trata de uma intervenção totalmente óbvia. Em 1888, aos 22 anos, enquanto preparava um seminário para August Schmarsow, Warburg se deparou na Biblioteca Nazionale Centrale de Florença com o famoso livro de Charles Darwin intitulado A expressão das emoções no homem e nos animais. O jovem Warburg anotou em seu diário: “Finalmente um livro que me é útil”. A relação dessa “utilidade” com a noção de Pathosformeln já foi comentada várias vezes, mas em termos vagos: já se disse que “a questão de saber em que sentido se deve interpretar tal infl uência continua em aberto”. Que seja. Mas toda interpretação deve levar em conta um dado sobre o qual os estudiosos de Warburg estranhamente se calam: que Darwin, no capítulo dedicado à contiguidade entre estados emocionais extremos, como os espasmos do riso e do pranto, citara numa nota a passagem de Reynolds já mencionada (“É curioso observar, e certamente é verdade, que os extremos de paixões opostas são expressos com pouquíssima variação pela mesma ação”), observando: “Ele [Reynolds] dá como exemplo a alegria frenética de uma bacante e a dor de uma Maria Madalena”.

Aquelas cinco linhas de Darwin despertaram na mente de Warburg uma refl exão que se estendeu por quarenta anos. Sentimos a tentação de ver aí, expressa

in nuce, a noção de “fórmulas de emoções” (Pathosformeln), com suas implicações: de um lado, a relação com a Antiguidade; de outro, a “inversão energética” que transforma o frenesi extático da bacante no frenesi de dor de Maria Madalena. Mas trata-se de uma ilusão retrospectiva: a semente não explica a árvore. É signifi cativo que Warburg tenha esperado quase vinte anos antes de propor publicamente a noção de Pathosformeln."

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