Leia trecho do livro ´As Tentações de Santo Antão´

Confira trecho do livro As Tentações de Santo Antão, de Gustave Flaubert, inspiração para a peça A Metafísica do Amor, de Márcio Aurélio. Capítulo INo cume de uma montanha, na Tebaida, há uma plataforma talhada em meia-lua e circundada de rochedos.A cabana do eremita fica ao fundo. É feita de barro e de caniços, e teto plano, sem porta. Vê-se lá dentro uma moringa e pão escuro. Ao centro, num estrado de madeira, um livro enorme; espalhados pelo chão, filamentos de esparto, duas ou três esteiras, uma cesta, uma faca.A dez passos da cabana há uma cruz alta, plantada no chão. No outro topo da plataforma, uma velha palmeira torcida pende sobre o abismo, porque a montanha é talhada a pique, e o Nilo parece formar um lago na base do penhasco.A barreira de rochedos encobre a vista de ambos os lados. Mas da banda do deserto, como plagas sucessivas, imensas ondulações paralelas, cor de ouro cinzento, espraiam-se umas após as outras, sempre se elevando.E para lá das areias, muito ao longe, a cordilheira líbica forma um muro de aspecto calcário, levemente esfumado de vapores violáceos.Em frente, declina o sol. O céu, ao norte, é de um cambiante cinza-pérola, e no zênite, nuvens cor de púrpura, esparsas como madeixas de uma juba gigantesca, estiram-se na abóbada azul. Estes raios incandescentes escurecem; o fundo anilado toma a cor do nácar, as moitas, a penedia, a terra, tudo agora parece duro como o bronze; e paira no ar uma poeira de ouro tão tênue, que mais parece a vibração da luz.Santo Antão de grandes barbas, os cabelos longos, um manto de pele de cabra, sentado de pernas cruzadas, está fazendo esteiras. Mal vê desaparecer o sol, suspira fundo, e murmura de olhos fixos no horizonte:Mais um dia... Mais um que passa.Mas outrora, eu não era tão miserável. Antes de expirar a noite já começava as minhas rezas; depois descia o rio a buscar água, e retornava pela rude encosta, odre ao ombro, cantando hinos. Em seguida, entretinha-me a arrumar a cabana. Pegava as ferramentas e me esforçava para que as esteiras fossem bem iguais, e leves as cestas; pois minhas ações mais ínfimas me pareciam então deveres que nada tinham de penoso. A horas certas, largava o trabalho e, rezando de braços abertos, sentia como que uma fonte de misericórdia derramar-se dos altos céus sobre o meu coração. Mas agora essa fonte secou. Por quê?Ele caminha lentamente, de um lado para o outro, no recinto das rochas.Todos me criticaram quando abandonei o lar.Minha mãe ficou profundamente abatida, minha irmã me acenava de longe para que eu voltasse, e a outra chorava, a Amonaria, essa menina que eu encontrava todas as tardes à beira da cisterna, tangendo os búfalos. Correu atrás de mim. Suas argolas dos pés luziam na poeira, e a túnica aberta nos quadris flutuava ao vento. O velho asceta que me levava atirou-lhe insultos. Os nossos dois camelos continuaram galopando e nunca mais vi ninguém.Escolhi primeiro, para habitar, o túmulo de um faraó. Mas circulam feitiços nesses palácios subterrâneos, onde as trevas parecem adensadas pelo antigo fumo dos incensos. Do fundo dos sarcófagos ouvia sair uma voz dolente que me chamava; ou então sentia viverem, de repente, as coisas abomináveis pintadas nos muros e fugi na direção do Mar Vermelho, para uma cidadela em ruínas. Ali, tive por companheiros os escorpiões que coleavam entre as pedras, e águias, no céu azul, rodopiavam sem parar por cima da minha cabeça. De noite, era dilacerado por garras, picado por bicos, roçado por asas macias, e demônios medonhos, uivando nos meus ouvidos, me atiravam ao chão. Só fui socorrido pela gente de uma caravana que ia para Alexandria e me levou junto.

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