Leia trecho do ensaio 'O Rei se Inclina e Mata', de Herta Müller

Vencedora do Prêmio Nobel de Literatura em 2009, a romena radicada na Alemanha tem seu livro O Rei se Inclina e Mata (Globo), com ensaios autobiográficos, publicados agora no País. Leia trecho do texto que dá nome à obra a seguir:

O Estado de S. Paulo

07 de fevereiro de 2014 | 18h29

"Muitas vezes me perguntam por que aparece tantas vezes o rei e tão raramente o ditador em meus textos. A palavra “rei” soa macia. E muitas vezes me perguntam por que aparece tantas vezes o barbeiro em meus textos. O barbeiro mede os cabelos, e os cabelos medem a vida.

No romance Der Fuchs war damals schon der Jäger uma criança pergunta ao barbeiro:

Quando o homem que jogou o gato vai morrer? O barbeiro meteu uma mão cheia de bombons na boca, quando o homem já cortou tanto cabelo que dá para encher um saco, ele disse, um saco bem cheio. Quando o saco estiver tão pesado quanto o homem, daí ele morre. Eu coloco o cabelo de todos os homens num saco, até o saco ficar bem apertado, disse o barbeiro. Eu não peso o cabelo com a balança, eu peso com os olhos.

O barbeiro, os cabelos e o rei se associaram muito antes de eu conhecer o ditador e antes que eu começasse a escrever.

Quando o rei vivia, parecia com um bezerro e com um cão e quando ele morreu, a coroa ficou grudada meio bile meio melão sob o cabelo as chuvas de verão deixam seus anjos desaparecidos entre os talos de milho todos eles guardas fugidos que já estiveram com o rei

Não existia uma estrada de asfalto que levava ao vilarejo onde eu me criei, só caminhos malcuidados e poeirentos. Mas o rei conseguiu chegar, senão não teria me encontrado lá. Ele não tinha nada a ver com os reis dos contos de fadas, eu não tinha livros de contos de fadas. Ele se compôs de coisas que, por serem vividas, eram reais. Ele veio do jogo de xadrez do meu avô, e o jogo de xadrez tinha a ver com o seu cabelo. Na Primeira Guerra Mundial meu avô foi soldado, acabou prisioneiro de guerra e esculpiu ali um jogo de xadrez para si.

O prisioneiro de guerra estava perdendo cabelo aos tufos e o barbeiro da companhia tratou seu couro cabeludo com o suco de folhas espremidas. O barbeiro tinha uma paixão, onde e sempre que possível ele jogava xadrez. Ele havia levado o seu jogo de xadrez de casa para a guerra. Porém, em meio ao caos do front o barbeiro acabara perdendo sete peças de xadrez. Ao jogar elas tinham de ser substituídas por casca de pão, penas de pássaros, pedacinhos de galho ou pedrinhas. Quando, após algumas semanas de tratamento, o cabelo do meu avô voltou a crescer e a se fortalecer como jamais fora antes, refletiu como poderia agradecer ao barbeiro.

Aí lhe chamaram a atenção duas árvores no campo dos prisioneiros, uma com uma madeira branca como cera e a outra num tom vermelho bem escuro. Ele esculpiu as peças faltantes e as deu de presente ao barbeiro. Foi assim que isso começou, disse-me ele."

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