Leia trecho de 'Quarenta Dias', de Maria Valéria Rezende

A escritora e freira Maria Valéria Rezende lança Quarenta Dias (Alfaguara), romance que acompanha o drama de uma mulher de cerca de 60 anos que se vê obrigada a abrir mão de sua vida para ajudar a filha, que mora do outro lado do país, a ser mãe. Confira alguns trechos da obra.

O Estado de S. Paulo

02 de maio de 2014 | 18h20

“E aqui estou vomitando nestas páginas amareladas os primeiros garranchos com que vou enchê-las até botar tudo para fora e esconjurar toda essa gente que tomou conta de mim e grita e anda para lá e para cá e chora e xinga e gargalha e geme e mija e sorri e caga e fede e arenga e escarra e morre e ressuscita sem parar

Ave-Maria! Quanto nome feio acabei de escrever!, eu que nunca fui disso! Nem me importa, ninguém vai ler essa”

(...)

“Ninguém vai ler o que escrevo, mas escrevo. É a única maneira de voltar inteiramente, se é que ainda dá para fazer meia-volta-volver.”

(...)

“Já enchi páginas e não achei o começo. Deixe de embromar, Alice, confesse que o broto desse espinheiro que cresceu dentro de você foi a revelação do egoísmo da sua filha.”

(...)

“Em resumo, o certo para ela é que eu, afinal, já tinha chegado ao fim da minha vida própria, agora o que me restava era reduzir-me a avó.

Eu, de cara, disse não, eu não queria me mudar pra Porto Alegre, aquele frio danado!, nem era preciso, que hoje a moda é todo mundo botar a pobre da criança presa numa creche assim que desmama, eu não havia de largar pra trás tudo o que custei tanto a conquistar, meus velhos amigos, os alunos que se tornavam novos amigos, a praia, o Atlântico todinho na minha frente, planos de viagens e atividades que tinha tido que adiar até então, mas ainda em tempo de realizar, a vida que eu considerva feliz, apesar das cicatrizes.

Foi pelas cicatrizes que ela me pegou e não me largou mais, chantageando: por minha culpa ela tinha crescido praticamente sozinha, eu me ausentava, só pensando em trabalhar pra esquecer a tragédia da minha juventude, ela não tinha culpa de nada, fui eu que nem tive coragem de recomeçar a vida, de lhe dar um novo pai, que ela, a bem-dizer, nunca teve nenhum, não lhe dei irmãos, eu nem imaginava como doía ver Umberto, eufórico, assando churrasco com sua enorme família gaúcha, o bando de irmãos que ele tinha, os sobrinhos, os pais, um casal feliz e realizado, recebendo todos de braços abertos, inclusive a ela, mas não era a mesma coisa, não eram do mesmo sangue (...)”

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