O Estado de S. Paulo
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Leia trecho de 'Para Quando Formos Melhores', de Celeste Antunes

Celeste Antunes estreia na literatura com ‘Para Quando Formos Melhores’. Leia trecho a seguir: "Sara estava sentada com as pernas dobradas, os joelhos apontando o teto, mãos encontrando o chão, pulsos virados pra fora. Com uma concentração quase forçada, ela observava o pé da escrivaninha de Miguel.

05 de novembro de 2013 | 21h19

Teo sentava na cadeira com as pernas abertas e os braços cruzados, como se estivessse vendo televisão no computador desligado. Os óculos grandes combinavam com sua vontade de opinar sobre tudo. Olhou para o porta-canetas, as pontas mordidas dos lápis, uma formiga que andava pela parede.

Na cama, com as pernas cruzadas e a cabeça apoiada pelo cotovelo, Fran parecia esperar. Não reparou nos lápis mordidos, muito menos na formiga, e também não ficaria bem de óculos. Ela estava para acontecer. Miguel não sabia pelo quê Fran esperava. Nem ele, nem ela.

(...)

Lucas - a culpa é da minha infância... acho que meus pais queriam que eu fosse loirinho e fizesse aula de piano, daí eu nasci moreno, fui pego com maconha com doze anos, daí eles desisitiram...minha gata chamava Encrenca, minha cachorra chamava Ninguém e minha babá chamava Socorro... um dia eu cheguei tão chapado que que chamei ela de "Help".

Teo - resolveu abrir seu coração, L?

Lucas sorriu.

Lucas - resolveu abrir sua boca, T?

Miguel - você chamou sua babá de "Help"?

Lucas - ah, eu tentei ser uma pessoa séria, mas depois meus pais ainda deram a minha cachora para uma mulher maluca que tinha um sítio, e eu comecei a receber cartas escritas em primeira pessoa pela Ninguém, o que era surreal, tipo: Querido Lucas, como vai você? Eu vou muito bem. Há muito espaço livre pra correr por aqui. Meu pelo está ficando cada vez mais branquinho. Assinado: Ninguém. (!) foi aí que eu desisti de vez de ser sério!

(...)

Os pais de Teo eram atores e alugavam um teatro antigo e pequeno, no centro de São Paulo, Como não havia nenhuma peça em cartaz, seu irmão mais velho resolveu dar uma festa naquele dia, e deixou ele convidar seus amigos. (...) Sara estava até de vestido. Fran, de jeans e camiseta, como sempre.

Lucas - vocês tão lindonas... Sara, você quer me beijar?

Sara - Eu passo, valeu... o que que você acha de dar "oi" primeiro, seu bêbado?

Lucas - oi, o que que você acha de me beijar, S.?

Sara - mamar na vaca vê num quer, né?

Fran riu um pouco desapontada por Lucas não tê-la escolhido para ser o alvo

(...)

Miguel jogou o travesseiro pra cima, pegou, e jogou, e pegou, e jogou, e pegou.

Mãe - você disse que quer ir pra um lugar bem longe daqui...

Miguel - eu quero.

Mãe - pra onde?

Miguel fechou os olhos.

Miguel - pro meio do nada, mãe.

Miguel colocou o travesseiro em cima do rosto.

Pai - Miguel... você tá decepcionado?

Miguel - eu não tô decepcionado, por que vocês ficam levando sempre pra esse lado? eu não tô decepcionado. nem vou socar a parede.

O barulho dos carros invadia o quarto.

Miguel - o mundo tá desafinado. eu não consigo ouvir. eu não ouço.

Miguel tirou o travesseiro do rosto, sentiu a impotência que se espalhava no ar como uma infecção e se arrependeu do que disse."

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