Leia trecho de 'O Viajante do Século'

Es-tá com fri-o-o?, gritou o cocheiro, com a luz entrecortada pelos pulos da carruagem. Es-tou be-em, o-bri-ga-do!, replicou Hans, tiritando.

Andrés Neuman,

18 de março de 2011 | 17h28

Os postes de luz se desfocavam ao ritmo do galope. As rodas cuspiam barro. A ponto de se quebrarem, os eixos se torciam em cada buraco. Os cavalos estufavam as mandíbulas e soltavam nuvens pela boca. Sobre a linha do horizonte girava uma lua opaca.

Fazia um tempo que Wandernburgo se desenhava ao longe, ao sul do caminho. Mas, pensou Hans, como costuma acontecer no final de uma jornada exaustiva, aquela pequena cidade parecia se deslocar com eles. O céu pesava em cima da cabine. A cada chicotada do cocheiro o frio se encorajava e oprimia o contorno das coisas. Fal-ta-a mui-to?, perguntou Hans, assomando a cabeça. Teve que repetir a pergunta duas vezes para que o cocheiro saísse da sua ruidosa atenção e, apontando com a vara, exclamasse: O se-nho-or já vai ver! Hans não soube se isso significava que faltavam poucos minutos ou que nunca se sabia. Como era o último passageiro e não tinha com quem falar, fechou os olhos.

 

Quando voltou a abri-los, viu uma muralha de pedra e uma porta abobadada. À medida que se aproximavam, Hans percebeu algo estranho na robustez da muralha, uma espécie de advertência sobre a dificuldade de sair, mais do que entrar. À luz afogada dos postes, divisou as silhuetas dos primeiros edifícios, as escamas de uns telhados, torres afiladas, ornamentos como vértebras. Teve a sensação de ingressar em um lugar recém-desalojado, de que as batidas dos cascos e as sacudidas das rodas sobre os paralelepípedos produziam eco demais. Tudo estava tão quieto que parecia que alguém os espiava contendo a respiração.´

 

Suplemento Literário:

Leia a íntegra do texto 'O Universo de Borges'

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