Marcos de Paula/Estadão – 18/4/2013
Marcos de Paula/Estadão – 18/4/2013

Leia trecho de 'O Herói Discreto', de Mario Vargas Llosa

Em novo livro, vencedor do Nobel volta a ter Peru como cenário

O Estado de S. Paulo

11 de outubro de 2013 | 19h37

“Felícito Yanaqué, dono da Empresa de Transportes Narihualá, saiu de casa naquela manhã, como todos os dias de segunda a sábado, às sete e meia em ponto, depois de fazer meia hora de Qi Gong, tomar um banho frio e preparar o desjejum de costume: café com leite de cabra e torradas com manteiga e umas gotinhas de melado. Ele morava no centro de Piura, e na rua Arequipa já fervia o bulício da cidade, as calçadas altas estavam repletas de gente indo para o escritório, para o mercado, ou levando as crianças para o colégio. Algumas beatas se dirigiam à catedral para a missa das oito. Os vendedores ambulantes ofereciam em voz alta suas balas de mel, pirulitos, apitos, empanadas e todo tipo de quinquilharias, e o cego Lucindo já estava instalado na esquina, debaixo do beiral de uma casa colonial, com o copinho de esmolas aos seus pés. Tudo igual a todos os dias, desde tempos imemoriais.

Com uma exceção. Nessa manhã alguém tinha fixado na velha porta de madeira tachonada de sua casa, à altura da aldraba de bronze, um envelope azul no qual se lia claramente, em letras maiúsculas, o nome do proprietário: DON FELÍCITO YANAQUÉ. Que ele lembrasse, era a primeira vez que alguém deixava uma carta pendurada assim, como uma notificação judicial ou uma multa. O normal era que o carteiro as enfiasse por dentro pela fresta da porta. Descolou o envelope, abriu-o e leu mexendo os lábios à medida que o fazia.”

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