Leia trecho de 'O Fundo do Céu', livro de Rodrigo Fresán publicado pela Cosac Naify

Tradutor da obra é o escritor gaúcho Antonio Xerxenesky; romance chega às livrarias no próximo dia 15 de maio

O Estado de S. Paulo

09 de maio de 2014 | 21h36

Argentino Rodrigo Fresán publica, em maio, seu segundo romance no Brasil, O Fundo do Céu. Este é o segundo livro do escritor lançado no Brasil, desta vez pela editora Cosac Naify (o outro livro, Jardins de Kensington, foi publicado pela Conrad em 2007). O livro fala, entre outras coisas, sobre ficção científica, e o trecho a seguir se refere a um grande clássico - do cinema - do gênero. Leia:

"Embora, de quando em quando - lembro-me agora - houvesse espaço para um milagre excepcional. Aquilo que alterava para sempre a disciplina rigorosa e paradoxal de um gênero que se dizia livre e sem fronteiras.

E lembro de uma tarde, há mais de trinta anos, na qual entrei no cinema para ver um filme que todos comentavam. Na época (Zack não tinha morrido ainda, para me tornar o acomodado guardião de sua memória e legado), eu escrevia roteiros da série Star Bound e considerava parte do meu trabalho estar sempre em dia com as questões do futuro. A ficção científica tinha se transformado, para mim, no mais pedestre dos trabalhos: olhar para o céu sabendo que nada me interessava menos do que tirar os pés do chão.

Paguei o ingresso, fiquei alguns segundos em frente aos pôsteres que mostravam uma estação espacial com a Terra ao fundo. “Venceder de TODOS os Oscars deste ano”, li abaixo do título. Entrei e me sentei na escuridão e entendi mais uma vez por que tantos fugitivos - porque o gângster postava-se à saída de um filme chamado Manhattan Comedy ou o assassino do presidente procurava desaparecer na penumbra de uma sussão dupla de Battle in Hell e Cry of War - sempre escolhiam uma sala de cinema para desaparecer por um tempo, para fazer hora, para flutuar no limbo, para escapar da realidade, para tentar ficar preso nesse momento mágico no qual não temos certeza absoluta se as luzes se apagaram para que seja feita a luz.

O ar da sala fedia a uma mistura de manteiga rançosa e pipoca com o aroma vegetal da maconha e de perfumes do Oriente. Não havia muitos assentos ocupados, mas quem tinha ido ao cinema parecia estar acampado ali havia meses. Uma pessoa me fez o sinal da paz, outro usava uma roupa com estampa de camuflagem, uma garota sardenta observava tudo do chão, onde estava sentada com as pernas enroscadas em uma posição impossível.

O filme começou, mostrando uma paisagem africana, imemorial, com símios que já não eram símios, mas também não eram homens, e logo apareceu um ominoso monólito preto e um osso se transformou em uma nave espacial que dançava uma caudalosa valsa azul da ausência de gravidade, e depois apareceu Júpiter e a loucura de um supercomputador que era mais sensível que os homens que o construíram e, ao final, uma espécie de hotel nos confins do universo e o retorno à casa, transformado e melhor e, com certeza, implacável.

E o silêncio tão eloquente do espaço.

E o vazio desse espaço tão cheio.

E a música do passado como o som do amanhã.

E a respiração pesada dos astronautas embalados a vácuo.

E um novo ser flutuando dentro de uma placenta de galáxias e, mais uma vez, o espaço exterior que tanto se parece com o espaço interior: a mesma luz escura, a mesma escuridão luminosa, a mesma grávida ausência de gravidade.

Eu mentiria se disse que entendi tudo."

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