Leia trecho de 'O Corpo em que Nasci', de Guadalupe Nettel

Autora mexicana usa seu problema de visão para refletir sobre questões do cotidiano

03 Janeiro 2014 | 14h24

Nasci com uma auréola branca, ou o que os outros chamam de mancha de nascimento, sobre a córnea do meu olho direito. Não haveria tido nenhuma relevância de não ter sido porque a mácula em questão estava em pleno centro da íris, ou seja, bem em cima da pupila por onde deve entrar a luz até o fundo do cérebro. Nessa época, não se praticavam ainda os transplantes de córnea em crianças recém-nascidas: a mancha estava condenada a ficar aí durante muitos anos. A obstrução da pupila favoreceu o desenvolvimento paulatino de uma catarata, do mesmo jeito que um túnel sem ventilação vai se enchendo de mofo. O único consolo que os médicos puderam dar aos meus pais naquele momento foi a espera. Certamente, quando sua filha terminasse de crescer, a medicina haveria avançado o suficiente para oferecer a solução que então lhes faltava. Enquanto isso, foram aconselhados a me submeter a uma série de exercícios cansativos para que desenvolvesse, na medida do possível, o olho deficiente. Isso se fazia com movimentos oculares semelhantes aos que propõe Aldous Huxley em “A Arte de Ver” mas também – e é do que mais me lembro – através de um curativo que me tapava o olho esquerdo durante metade do dia. Tratava-se de um pedaço de tela com as bordas adesivas semelhantes às de um decalque. O curativo era cor de carne e ocultava da parte de cima da pálpebra até o princípio do pômulo. À primeira vista, dava a impressão de que no lugar do globo ocular só havia uma superfície lisa. Usá-lo me causava uma sensação opressiva e de injustiça. Era difícil aceitar que me pusessem aquilo toda manhã e que não havia esconderijo ou choro que pudesse me libertar daquele suplício. Acho que não teve um só dia em que eu não resistisse. Teria sido tão fácil esperar que me deixassem na porta da escola para arrancá-lo com um puxão, com o mesmo gesto despreocupado com que costumava arrancar as cascas de ferida dos joelhos. Mesmo assim, por uma razão que ainda não consigo entender, nunca tentei tirá-lo.

Com esse curativo eu devia ir à escola, reconhecer minha professora e as formas de meus materiais escolares, voltar para casa, comer e brincar uma parte da tarde. Por volta das cinco, alguém se aproximava para me avisar que era hora de retirá-lo e, com essas palavras, me devolvia ao mundo da claridade e das formas nítidas. Os objetos e as pessoas com que tinha me relacionado até esse momento surgiam de modo distinto. Podia ver a distância e deslumbrar-me com as copas das árvores e sua infinidade de folhas, o contorno das nuvens no céu, os matizes das flores, o traçado tão preciso de minhas impressões digitais. Minha vida se dividia assim entre duas classes de universo: o matinal, constituído sobretudo por sons e estímulos olfativos, mas também por cores nebulosas, e o vespertino, sempre libertador e ao mesmo tempo de uma precisão acachapante.

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