Leia trecho de 'O Africano', um romance de Le Clézio

Livro mais recente do escritor francês ganhador do Nobel de Literatura mistura ficção e auto-biografia

Jean-Marie Gustave Le Clézio,

09 de outubro de 2008 | 12h20

O Africano é um livro ilustrado com fotos do arquivo particular de seu autor, o agora Prêmio Nobel de Literatura Jean-Marie Gustave Le Clézio, e conta uma história com traços ficcionais e auto-biográficos narrada por um homem que reconstitui o percurso de seu pai como médico militar nas colônias inglesas da África e ao mesmo tempo procura entender sua infância passada entre a Europa e o continente africano. O romance foi publicado pela editora Cosac & Naify no ano passado. Leia trecho do primeiro capítulo:  A África era mais o corpo que o rosto. Era a violência das sensações, a violência dos apetites, a violência das estações. A primeira lembrança que tenho desse continente é a de meu corpo coberto por uma erupção de bolhinhas causadas pelo extremo calor, uma afecção benigna de que os brancos sofrem quando ingressam na zona equatorial, com nomes cômicos como brotoeja ou borbulha. Estou na cabine do navio que avança lentamente pela costa, ao largo de Conakry, Freetown, Monróvia, nu na caminha, a escotilha aberta ao ar úmido e o corpo polvilhado de talco, com a impressão de estar num sarcófago invisível ou de ter sido apanhado como um peixe em puçá e passado na farinha antes de ir à fritura. A África, já me tirando o rosto, dava-me um corpo dolorido e febril, esse corpo que a França me ocultara na doçura anemiante da casa de minha avó, sem instinto, sem liberdade. O que eu recebia no barco que me arrastava para aquele outro mundo era também a memória. O presente africano apagava tudo que o tinha precedido. A guerra, o confinamento no apartamento de Nice (onde, nos dois cômodos de uma espécie de água-furtada, éramos cinco a viver, aliás seis, contando a empregada Maria, de quem minha avó resolvera não abrir mão), as rações, ou então a fuga na montanha, onde minha mãe se escondia por medo de ser levada pela Gestapo - tudo isso se apagava, desaparecia, tornava-se irreal. Daqui em diante, para mim, só existiria antes e depois da África. A liberdade, em Ogoja, era o reino do corpo. Ilimitado, o olhar, do alto da plataforma de cimento na qual fora construída a casa, semelhante ao habitáculo de uma barcaça sobre o mar de capim. Se faço um esforço de memória, posso reconstituir as fronteiras vagas desse domínio. Alguém quehouvesse conservado a memória fotográfica do lugar se espantaria com o que um menino de oito anos era capaz de aí ver. Um quintal, sem dúvida, não um jardim recreativo - existiria nessa terra alguma coisa que fosse para recreação? Era mais um espaço utilitário, onde meu pai tinha plantado fruteiras, mangueiras, goiabeiras, mamoeiros, e que servia de cerca-viva diante da varanda, laranjeiras e limeiras cujas folhas, quase todas, as formigas uniam para fazer ninhosaéreos, repletos de uma espécie de penugem felpuda que abrigava seus ovos. Em algum canto, mais para trás da casa, no meio do matagal, um galinheiro onde coabitavam galinhas e galinhas-d'angola e cuja existência não me é assinalada senão pela vertical presença no céu de abutres nos quais meu pai, de vez em quando, atirava com a carabina. Mas digamos que fosse um jardim, já que a um dos empregados da casa cabia o título de garden boy. No outro extremo do terreno é que deviam ficar as choças dos serviçais: o boy, o small boy e sobretudo o cozinheiro, de quem minha mãe gostava e com quem preparava, em vez de pratos à francesa, a sopa de amendoim, as batatas-doces assadas ou o fufu, uma papa de inhame que era o nosso trivial. De quando em quando minha mãe se lançava a experiências com ele, fazendo compotas de goiaba, mamão cristalizado ou ainda sorvetes de frutas não cremosos que ela batia à mão. Nesse quintal, sempre havia crianças, em grande número, que chegavam pela manhã, todos os dias, para conversar e brincar, e das quais só nos separávamos ao cair da noite. Tudo isso poderia dar a impressão de uma vida colonial muito organizada, quase citadina - ou pelo menos campestre, à moda da Inglaterra ou da Normandia de antes da era industrial. No entanto era a liberdade total do corpo e do espírito. Diante da casa, na direção oposta ao hospital onde meu pai trabalhava, começava uma extensão sem horizonte, com uma ligeira ondulação onde o olhar podia se perder. Ao sul, o declive conduzia ao vale nevoento do Aiya, um afluente do rio Cross, e às aldeias, Ogoja, Ijama, Bawop. Para o norte e o leste, eu podia ver a grande planície amarelada, pontilhada de colossais cupinzeiros, cortada por arroios e brejos, e o começo da floresta, as matinhas de gigantescos irokos e okumés, tudo coberto por um céu imenso, uma abóbada de azul muito forte onde o sol ardia e que era invadida, todas as tardes, por nuvens que traziam tempestades. Lembro-me da violência. Não uma violência secreta, hipócrita, aterrorizante, como a conhecida por todas as crianças que nascem no meio de uma guerra - sair às escondidas, espiar os alemães de capote cinza a roubar os pneus do De Dion-Bouton de minha avó, ouvir remoer num sonho as histórias de tráfico, espionagem, expressões dissimuladas, mensagens de meu pai vindas por intermédio do cônsul dos Estados Unidos, Mr. Ogilvy, e sobretudo a fome, a falta de tudo, o diz-que-diz sobre as primas de minha avó se alimentando de cascas. Aquela violência não era realmente física. Era velada e oculta como uma doença. Minando-me o corpo, causava-me acessos incontíveis de tosse e dores de cabeça tão fortes que eu até me escondia, punhos enfiados nas órbitas, sob a longa toalha da mesinha de canto.  Ogoja dava-me outra violência, real, às claras, que fazia vibrar meu corpo e era visível em todos os detalhes da vida e da natureza circundante. Temporais como depois nunca vi, nem sequer em sonho, o negrume do céu zebrado pelos raios, o vento que envergava as grandes árvores ao redor do quintal, que arrancava as palmas do teto, rodopiava na sala de jantar, passando por debaixo das portas, e apagava os lampiões a querosene. Algumas noites, um vento vermelho, vindo donorte, dava brilho às paredes. Uma força elétrica que eu tinha de aceitar, de domar, e em relação à qual minha mãe inventara uma brincadeira, contar os segundos que nos separavam do impacto do trovão, ouvi-lo aproximar-se, quilômetro após quilômetro, e depois se afastar para as montanhas. Uma tarde, quando meu pai operava no hospital, um raio entrou pela porta e, sem barulho, se difundiu pelo chão, derretendo os pés metálicos da mesa de operação e queimando as solas de borracha das sandálias dele; depois o raio recompôs-se e, como um ectoplasma, fugiu por onde havia entrado para reintegrar-se ao fundo do céu. A realidade estava nas lendas.

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