Denise Andrade/Estadão
Denise Andrade/Estadão

Leia trecho de 'Nu, de Botas', de Antonio Prata

Na obra, autor recria a história de sua infância

O Estado de S. Paulo

20 de dezembro de 2013 | 19h00

Em seu novo livro, Nu, de Botas, Antonio Prata recria a história de sua infância e reserva ótimos papéis a seu pai, Mario, e A sua mãe, a escritora Marta Góes. Leia trecho a seguir:

"No princípio, era o chão.

No piso do quintal, ladrilhado com cacos de cerâmica vermelha, via um elefante de três pernas, um navio, um homem de chapéu fumando cachimbo. Na manhã seguinte, as imagens haviam mudado: o homem de chapéu era um bolo mordido; o elefante, parte de um olho enorme - a tromba, um cílio -; o navio zarpara, deixando para trás apenas cacos de cerâmica vermelha no piso do quintal.

Na sala, com uma tampa de Bic levantava os tacos soltos para espiar o que se escondia embaixo: uma mosca morta, uma unha cortadao, um grampo - pequenos achados arqueológicos, estudados com perícia através da lupa.

Deitado, a bochecha colada à madeira, sentindo no rosto a brisa fria que sopra ao rés do chão, espiava o vão escuro sob a cristaleira: a poeira formava tufos, matéria-prima da qual, acreditava, era feito o cobertor cinzento do mendigo da esquina. Tinha sua lógica: o homem miserável coberto pela manta de pó. Só não compreendia como a sujeira se transformava em tufo, o tufo em cobertor, e o cobertor ia parar em volta do mendigo. Mais um mistério, entre tantos deste mundo.

No princípio, eram as trevas." 

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