Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Leia trecho de 'Nossos Ossos', de Marcelino Freire

Autor demonstra potencial para criar uma série a partir desta obra

O Estado de S. Paulo

20 de dezembro de 2013 | 19h00

Em Nossos Ossos, Marcelino Freire buscou seu próprio caminho na velha saga dos que deixam o suposto paraíso rural ou semirrural em busca da utopia urbana e quebram a cara nas bocas do lixo. Leia trecho a seguir

"O meu boi morreu,

o que será de mim?

Manda buscar outro,

ó maninha, lá no Piauí.

Domínio público

 

Os ligamentos

O próximo, o próximo, por favor, e o próximo sou eu, assim me chamou o caixa do banco, já estou indo, já vou, digo e sigo, firme, carregando o que a arte dramática me deu, esta cara séria, meus olhos continuam verdes e profundos, minha alma nem dá na vista que apodreceu.

Todo o soldo que tenho desta vez eu levarei, o gerente veio de novo me perguntar se eu realmente viajaria, sim, inventei, faz uma vida que não vou ao Nordeste, vou a trabalho, receberei um prêmio pelo conjunto da obra, uma espécie de recompensa, desconverso, há quanto tempo, nem lembro, que eu sou cliente desta agência?

O caixa também sabe de mim, olá, como estamos, ele igualmente quer garantir se está tudo em ordem, é uma grande soma em dinheiro, nem eu imaginaria que tivesse esse montante em conta, uma existência dedicada aos palcos, a primeira peça que escrevi faz quase trinta anos.

Não é um assalto, nem estou sendo chantageado, fiz questão de responder, agradeci a preocupação do chefe da segurança, ele me acompanhou até a porta, entrei no táxi, o motorista é conhecido nosso, não há motivo para desconfiança, obrigado, até logo e adeus.

No meu prédio um outro susto, o zelador estranhou a madrugada anterior em que eu passei arrastando caixas, rasgando papéis, entulhando livros na área de serviço, e o momento em que me despedi dele, em silêncio, dizendo que a viagem seria longa, sem data para voltar, mas não irei de vez, preciso que alguém cuide de Picasso para mim, o meu gato siamês, será que essa viagem tem a ver com a polícia, que procurou por ele faz coisa de uma semana, comentou à cama, antes de dormir, a mulher do zelador.

O motorista de táxi, do ponto da praça, já foi a vários endereços comigo, o tanto que a gente andou, daí eu entendi ele ter me perguntado o que danado eu fui fazer ontem na funerária, sem contar que, dias atrás, saí à cata de assinaturas de documentos no Instituto Médico-Legal, não me leve a mal, tem certeza de que não aconteceu uma desgraça, indagou, me fale, por favor, me diga.

Agradeci a ajuda, comovido, mas olhe só, eu fico de novo nesta rua, desci e dei a ele uma gorjeta graúda, o taxista gostou, em outras corridas já me levou àquele hotel no Bom Retiro para reuniões, leituras, encontros, o jovem mensageiro me cumprimentou, piscando, eu garanto que aqui estou em casa, até parece que o mundo inteiro está me vigiando, ora, juro que não é nada de mais."

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