Leia trecho de 'Memórias de um Caçador', de Ivan Turguêniev

 Khor e Kalínitch

10 de janeiro de 2014 | 17h05

(Tradução de Irineu Franco Perpetuo; editora 34)

Quem já foi do distrito de Vólkhov ao de Jizdra possivelmente ficou espantado com a aguda diferença no aspecto das pessoas da província de Oriol e de Kaluga. O mujique de Oriol é baixo, arqueado, soturno, olha de soslaio, mora em umas isbás de choupo pequenas e malfeitas, presta corveia, não faz comércio, come mal, calça alpargatas; o camponês arrendatário de Kaluga habita em espaçosas isbás de pinheiro, é alto, olha de forma sorridente e alegre, tem o rosto limpo e claro, comercia manteiga e alcatrão e usa botas nos feriados. A aldeia de Oriol (estamos falando da parte oriental da província de Oriol) normalmente está situada em meio a campos arados, perto de uma vala transformada de qualquer jeito em um tanque imundo. Tirando uns salgueiros sempre às ordens e umas duas ou três bétulas ralas, não se vê uma árvore sequer no raio de uma versta; uma isbá é grudada na outra, os telhados, atulhados de palha suja... A aldeia de Kaluga, ao contrário, é geralmente rodeada de floresta; as isbás são mais livres e mais retas, com telhado de ripa; o portão fecha direito, a cerca do quintal não está desfeita nem tombada, convidando os porcos que passam... E, para a caça, a província de Kaluga também é melhor. Na província de Oriol, as últimas florestas e praças estão fadadas a desaparecer em cinco anos, e não há nem sombra de pântano; em Kaluga, ao contrário, as matas se estendem por centenas de verstas, os pântanos por dezenas, essa ave nobre que é o tetraz ainda não se extinguiu, encontra-se a bondosa narceja, e a atarefada perdiz alegra e assusta o atirador e o cachorro com seu voo impetuoso.

Visitando o distrito de Jizdra como caçador, eu me deparei com um campo e travei conhecimento com um pequeno proprietário de Kaluga, Polutikin, um apaixonado pela caça e, portanto, uma pessoa exemplar. Possuía, é verdade, algumas fraquezas: por exemplo, oferecia-se a todos os bons partidos da província e, quando a mão e a casa lhe eram recusadas, confiava seu pleno pesar, com o coração aflito, a todos os amigos e conhecidos, continuando, porém, a enviar aos parentes da noiva pêssegos azedos e outros presentes de seu jardim; adorava repetir sempre a mesma anedota, a qual, apesar da admiração do senhor Polutikin por seus méritos, decididamente jamais fez alguém rir; louvava a obra de Akim Nakhímov e a novela Pinna; gaguejava; chamava o cachorro de Astrônomo; em vez de mas, dizia todavia, e implantara em casa a cozinha francesa, cujo segredo, no entendimento de seu cozinheiro, consistia em alterar completamente o sabor natural de todos os pratos: graças a esse artista, a carne ficava com gosto de peixe, o peixe, de cogumelos, o macarrão, de pólvora; em compensação, não havia cenoura que entrasse na sopa sem ter tomado o aspecto de um losango ou trapézio. Porém, à exceção desses poucos e insignificantes defeitos, o senhor Polutikin era, como já foi dito, uma pessoa exemplar.

No primeiro dia em que conheci o senhor Polutikin, ele me convidou a pernoitar em sua casa.

- São umas cinco verstas - acrescentou -, é longe para ir a pé. Vamos primeiro até a casa de Khor. (Permita-me o leitor não reproduzir seu gaguejar.)

- E quem é esse Khor?

- Um mujique meu... Fica pertinho daqui.

Fomos até ele. Em meio à floresta, em uma clareira limpa e bem cuidada, a casa de Khor se erguia, solitária. Consistia de umas armações de pinheiro, unidas em uma cerca; na frente da isbá principal se estendia um alpendre sustentado por colunas finas. Entramos. Veio a nosso encontro um rapaz de vinte anos, alto e belo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.