Leia trecho de Lições de Sade

É significativo que um dos livros mais importantes do marquês de Sade - La Philosophie dans le boudoir - associe, desde o título, a reflexão filosófica às práticas libertinas. Isso porque não se trata, como às vezes propõem as traduções apressadas, de uma filosofia da alcova, mas sim de uma filosofia na alcova. A diferença é sutil mas essencial: aqui o filósofo desloca-se para o boudoir libertino, o que é bastante distinto da atitude de quem se propõe a refletir sobre a alcova sem deixar o gabinete, como fizeram muitos contemporâneos do marque. Antes de mais nada, vale lembrar que a alcova - espaço privilegiado da experiência libertina - é um aposento localizado estrategicamente entre o salão, onde reina a conversação, e o quarto, destinado ao amor. Segundo Yvon Belaval, "o boudoir" simboliza o lugar de união da filosofia e do erotismo". Assim sendo, o deslocamento que se opera em "La Philosophie dans le boudoir" parece realizar-se em dois sentidos: de um lado, trata-se de corromper as idéias por meio do corpo, e de outro, de corromper o corpo por meio das idéias. Tal estratégia evidencia-se na própria estrutura dos textos de Sade, que alternam as cenas lúbricas e as discussões filosóficas num movimento vertiginoso, até o ponto de reuni-las nu só ato. Quando a reflexão e a paixão se fundem, estabelece-se uma unidade entre pensamento e corpo, à qual o libertino dá o nome de "filosofia lúbrica".Ora, ao deslocamento do filósofo corresponde também um desvio do leitor. Todos aqueles que já acompanharam as narrativas sadianas sabem: não é simples ler Sade. Se o fosse, certamente o autor não se daria ao trabalho e sempre alertar quem o lê. Esse alerta é realizado ora na forma sutil de convite, como na Introdução de "Les 120 journées de Sodome" - "E agora, amigo leitor, prepare seu coração e sua mente para a sua mente para a narrativa mais impura já escrita desde que o mundo existe, livro que não encontra paralelo entre os antigos ou entre os modernos " - ora, na forma de desafio, como nesta passagem do conto "Florville et Courval": "Neste ponto a minha pena detém-se... Eu deveria pedir perdão aos meus leitores, suplicar-lhes que não fossem adiante... Sim... Sim, eles que fiquem por aqui se não querem estremecer de horror...".Entre o convite e o desafio esboça-se claramente a constituição de um leitor, imaginado como interlocutor ideal. De início, vale lembrar que Sade recusa a idéia de que seu texto possa se oferecer a um leitor médio, ou universal: seus livros não são jamais destinados a um público abstrato. Ou seja, se a cumplicidade não é imediata para o leitor, tampouco ela é suposta pelo autor. O marquês tem em mente um público bastante restrito e específico, ao qual se expressa de forma direta e íntima, como numa conversa particular.Vejamos então a quem se dirige o autor de "La Philosophie dans le boudoir", a quem ele propõe a leitura. Há pelo menos três passagens do livro que são fundamentais para esclarecer a questão: a epígrafe que se encontra na página de rosto, a dedicatória que abre o volume e ainda uma passagem na qual o personagem Dolmancé indica quem é seu interlocutor privilegiado."A mãe prescreverá a leitura deste livro a sua filha", alerta a epígrafe. Conhecendo o conte´[Udo do volume, não é difícil concluir que estamos diante de uma afirmação em que vigoram a ironia e o sarcasmo. Nesse sentido, a frase indica justamente o "antileitor" de Sade, aquele a quem ele só se dirige com desprezo. Esse leitor que o marquês descarta por completo é representado aqui numa figura exemplar: a mãe".Sabemos a que níveis chega a aversão às "mães de família" cultivada pelos personagens sadianos. A mãe representa, por excelência; o espaço do lar e, com ela, os ideais de infância, de educação das crianças, de amor pela família etc. Talvez nenhum livro expresse tão bem essa aversão quanto "La Philosophie dans le boudoir": ao contrário da educadora do lar - a quem cumpre instruir os filhos sobre os bons costumes ditados pela virtude -, Mme. De Saint-Ange, a preceptora libertina, forma sua discípula Eugénie por meio de uma educação erótica, ensinando-lhe a arte da sedução e as mais requintadas formas de alcançar o prazer".

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