Leia trecho de "Esse Ofício do Verso"

Sempre quis saber a origem das traduções literais. Hoje em dia temos gosto por traduções literais; aliás, muitos de nós só aceitam traduções literais, porque queremos dar a cada um o que é seu. Isso teria parecido um crime aos tradutores em épocas passadas. Eles pensavam em algo bem mais valioso. Queriam provar que o vernáculo era capaz de um grande poema como o original. E suponho que d. Juan de Jáuregui, ao verter Lucano para o espanhol, também tenha pensado nisso. Não acho que um contemporâneo de Pope pensasse em Homero e em Pope. Suponho que os leitores - os melhores leitores, pelo menos - pensavam no poema em si mesmo. Estavam interessados na Ilíada e na Odisséia e não ligavam para ninharias verbais. Ao longo de toda a Idade Média, as pessoas pensavam a tradução não em termos de uma versão literal, mas em termos de algo sendo recriado. De um poeta, tendo lido uma obra, desenvolver essa obra a partir de si mesmo, de sua própria força, das possibilidades até ali conhecidas de sua língua. Como surgiram as traduções literais? Não acho que resultem da erudição; não acho que resultem de escrúpulos. Acho que tiveram uma origem teológica. Pois embora as pessoas considerassem Homero o maior dos poetas, sabiam que Homero era humano ("quandoque dormitat bonus Homerus" etc.) e podiam assim remodelar suas palavras. Mas quando se tratou de traduzir a Bíblia, a coisa mudou de figura, porque se julgava que a Bíblia fora escrita pelo Espírito Santo. Se pensamos no Espírito Santo, se pensamos na infinita inteligência de Deus empreendendo uma tarefa literária, não nos é permitido pensar em nenhum elemento casual - em nenhum elemento fortuito - em sua obra.

Agencia Estado,

23 de dezembro de 2000 | 20h41

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