Leia trecho de 'Espiral Terra', de Mauricio Salles Vasconcelos

Porfessor livre-docente de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa (USP), Mauricio Salles Vasconcellos lança Espiral Terra - Poéticas Contemporâneas de Língua Portuguesa (Annablume). Leia trecho da obra a seguir:

O Estado de S. Paulo

28 de fevereiro de 2014 | 18h41

"O interesse de minha reflexão crítica acerca de alguns trabalhos poéticos da atualidade realizados no Brasil, na África e em Portugal, conta com as dimensões possíveis à linguagem da literatura na conjuntura da mundialidade atual. Orienta-se em consonância, também, com  o campo aberto pela trilha teórica comparativista no presente a abarcar artes da imagem (plásticas, caso de Robert Smithson e Hélio Oiticica, e áudio-visuais, como os híbridos de documentário e ficção dirigidos por Jean Rouch, Ousmane Sembene e Pedro Costa) e da música (especialmente, em torno do diálogo promovido com a canção e a jukebox por Manuel de Freitas), isso no que se relaciona a um escopo interartístico, e, numa acepção transdisciplinar, centra-se no elo formado com a filosofia e os estudos sobre o mundo e a cultura globais.  

Na episteme do saber contemporâneo, desenha-se outro mapa da finitude e do fundamento das Humanidades, no qual o poeta e o poema atuam em um plano de reconfiguração de linguagens, em atuação dentro de um universo de signos conhecido como literatura a contar de um multidimensionamento de enlaces. 

A poesia ocupa espaço essencial, nada essencialista, na cena da pós-produção, da posterioridade da arte sem simples anteposição ou retorno a algum princípio em salvaguarda, mas através de um entrelaçamento crítico, diagramático. A escrita passa a ser apreendida como prática cartográfica (pesquisa e montagem por escrito da tópica heterogênea presente na realidade cultural).

Perguntas e atos constantes orbitados em volta do que são e podem poema e mundo. A poesia, antes e agora. No fim do Futuro. Chama-se mundo, tudo o que “foi e permanecerá impensado, através de todos os pensamentos e experiências do “sentido”, daquilo que é e de sua totalidade” (Axelos, 1991: 60).

A literatura incide na cosmotécnica contemporânea onipresente nos mais variados domínios culturais. Depois da Arte, o poeta atua como agente do corpo multitudinoso –  marcadamente  múltiplo, nada homogêneo, nada massificador – da realidade planetária, através das semioesferas de existência e sentido, desbravadas exatamente agora. 

Tudo o que ocorre no ápice de uma noção capitalizada como verdade universal – globalização/mundialização –, producente, porém, de dimensões diferenciadas de criação, tornadas simultâneas pelas redes da infocultura e do nomadismo característico das vidas em  caminhada por  megacidades  e   restos de lugares, nas margens das nações. Na tensão das divisas cada vez mais complexas entre periferia/centro, um poema contínuo presente, como se lê na produção de Herberto Helder, é sinalizado por natureza e técnica. Poema do começo, o sistema sideral infunde-se... (está escrito em Do mundo: 528-529)."

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