Leia trecho de ?Em Busca de Klingsor?

"Nada de luz!"Suas palavras, ácidas e envelhecidas, fazem o mundo voltar, por um instante, à fria idade das trevas. O espaço ao seu redor é como uma gota de nanquim em que a escuridão é acentuada pelo silêncio: durante alguns segundos, ninguém aplaude, ninguém o engana, ninguém o insulta. Obedientes, até os relógios emudeceram. A morte, pensa ele, não há de ser muito diferente. Somente quando o eco de sua própria voz se desfaz, ele percebe que habita um cosmo que já não lhe pertence. "De novo desde o início", ordena. "Quero ver tudo outra vez!"O operador põe mãos à obra: rebobina, torce, remonta. Depois gira uma manivela e o complicado mecanismo começa a funcionar. Atento, o Führer ouve os murmúrios que o aparelho desfia. É o fim da escuridão e de sua ira. Um potente raio atravessa a sala e se crava na tela como uma bala no peito de um inimigo. Agora ele pode entrever os degraus do corredor, as dobras das cortinas, as silhuetas das poltronas. E a sala de projeções se transforma, como todas as noites, numa linha de fogo.Os quanta de luz se dispersam sem ordem nem concerto por todo o recinto; instalam-se nas paredes e no carpete, aderem a seus lábios e suas orelhas, remexem seu cabelo e por fim vão se instalar nos cantos, convertendo a sala num arremedo de mundo. Adiante, o fulgor e as sombras celebram sua sangrenta cerimônia, repetem rostos e agonias, concedem uma existência vicária a esses corpos que há muito deixaram de existir. Com o entusiasmo de uma criança que tornasse a ouvir sua história favorita, Hitler saboreia o espetáculo pela enésima vez.

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