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Leia trecho de 'Cardano - Ascensão, Tragédia e Glória na Renascença Italiana'

O médico brasileiro Raul Emerich segue os passos de Girolamo Cardano, autor do século 16 pouco conhecido, mas que teve uma rica tragetória. Leia trecho do primeiro capítulo de Cardano - Ascensão, Tragédia e Glória na Renascença Italiana (Record) a seguir.

O Estado de S. Paulo

07 de fevereiro de 2014 | 18h45

"O verão dessa vez tinha sido ameno. Nem tanto sol, nem tanta chuva. Já passara da metade do ano 1501 da encarnação do Senhor, assim diziam. A cidade de Pavia ficava a duas horas de Milão, no galope rápido de um mensageiro. Por causa da gravidez avançada, Chiara tinha percorrido essa distância muito mais lentamente, em uma carroça que evitava ao máximo os solavancos desagradáveis do caminho.

Isidoro dei Resti, que a acolheu, era amigo do matemático e jurisconsultor Fazio, pai da criança que ela levava ao ventre. A esposa de Isidoro, madonna Giulia, foi extremamente amável com Chiara e fez com que ela se sentisse em casa. Aliás, uma casa bastante agradável e espaçosa, toda de pedra e com as paredes brancas. Diferentemente da maioria das residências, tinha mais de um aposento e ficava a menos de cem passos da igreja e do comércio de tecidos e grãos. 

Nesse momento, na verdade, Chiara gemia na cama de hóspedes. As luzes das velas tremulavam no lustre de pedestal e em cima da cômoda. O quarto era bastante confortável, mas as dores do parto tornavam o lugar um inferno sem-fim. Isso sugeria que algo de errado poderia estar ocorrendo.

Não era normal um parto tão prolongado em quem já parira antes. Havia raiado o terceiro dia, e a barriga endurecia assustadoramente, de uma forma tão desgastante que Chiara desfalecia de tempos em tempos. A parteira, bastante cansada, tinha dormido por alguns minutos no sofá do canto do quarto e saíra um pouco para recobrar as forças. 

Vestidas de preto, algumas vizinhas recepcionadas pela signora Dei Resti rezavam na sala de estar e já esperavam por uma notícia ruim. Afinal, o parto era um daqueles momentos de alto risco na vida de uma mulher e também, claro, da criança. De forma menos frequente, mas não rara, ambos terminavam enterrados lado a lado. 

De qualquer maneira, o risco estava em toda parte. Voltara a Milão a peste negra, depois de uma ausência de muitos anos. A pobreza tinha aumentado, e os mais desamparados vagavam pela cidade. 

Mesmo o popolo grasso, como eram chamados os mercadores em ascensão, não estava muito bem. Cardadores de lã, tintureiros e serventes reclamavam da situação. Em tom de lamento, repetia-se: quando falta comida, a peste come. Esta tinha sido a razão para Fazio escolher Pavia, aparentemente sem casos registrados até então. Pelo menos foi o que disse a Chiara.

Ela já tinha tido a peste e sobrevivera; este era o sinal de que tinha humores internos altamente favoráveis. O fruto da gravidez, porém, era uma incógnita. E nem sempre bem-vindo.

- Chega... Este é o castigo... — gemeu Chiara, quase em alucinação. No fundo, ela sabia que o castigo poderia ser ainda pior. E gritou, a ponto de ser ouvida na sala: - Eu amaldiçoo este filho!

Todos ficaram petrificados. Ninguém falava algo dessa magnitude e permanecia impune. Acreditava-se que tanto os espíritos da floresta poderiam agir de forma bastante malévola quanto o próprio Espírito Santo. Uma das choradeiras saiu subitamente pela porta da casa à procura da madonna Di Filippi, a adivinhadeira mais influente de toda a região. Ela já havia conversado com Chiara alguns dias antes. Talvez pudesse quebrar o efeito de uma corrente tão negativa."

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