Leia trecho de capítulo do livro A Pedra do Reino

O Romance d´A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta é de 1971

Agencia Estado

14 de junho de 2007 | 17h57

Para marcar os 80 anos de Ariano Suassuna, estréia na Rede Globo, nesta terça-feira, 12, a microssérie A Pedra do Reino, dirigida por Luiz Fernando Carvalho. O programa foi inspirado no livro O Romance d´A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta (1971), relançado em 2004 pela editora José Olympio. Confira trecho de capítulo da obra.Folheto I - Pequeno Cantar Acadêmico a Modo de IntroduçãoDaqui de cima, no pavimento superior, pela janela gradeada daCadeia onde estou preso, vejo os arredores da nossa indomável Vila sertaneja.O Sol treme na vista, reluzindo nas pedras mais próximas. Da terraagreste, espinhenta e pedregosa, batida pelo Sol esbraseado, parecedesprender-se um sopro ardente, que tanto pode ser o arquejo de geraçõese gerações de Cangaceiros, de rudes Beatos e Profetas, assassinadosdurante anos e anos entre essas pedras selvagens, como pode ser a respiraçãodessa Fera estranha, a Terra - esta Onça-Parda em cujo dorso habitaa Raça piolhosa dos homens. Pode ser, também, a respiração fogosadessa outra Fera, a Divindade, Onça-Malhada que é dona da Parda, e que,há milênios, acicata a nossa Raça, puxando-a para o alto, para o Reino epara o Sol.Daqui de cima, porém, o que vejo agora é a tripla face, de Paraíso,Purgatório e Inferno, do Sertão. Para os lados do poente, longe, azuladapela distância, a Serra do Pico, com a enorme e alta pedra que lhe dá nome.Perto, no leito seco do Rio Taperoá, cuja areia é cheia de cristais despedaçadosque faiscam ao Sol, grandes Cajueiros, com seus frutos vermelhos ecor de ouro. Para o outro lado, o do nascente, o da estrada de CampinaGrande e Estaca-Zero, vejo pedaços esparsos e agrestes de tabuleiro, cobertosde Marmeleiros secos e Xiquexiques. Finalmente, para os lados donorte, vejo pedras, lajedos e serrotes, cercando a nossa Vila e cercados,eles mesmos, por Favelas espinhentas e Urtigas, parecendo enormes Lagartoscinzentos, malhados de negro e ferrugem; Lagartos venenosos, adormecidos,estirados ao Sol e abrigando Cobras, Gaviões e outros bichosligados à crueldade da Onça do Mundo.Aí, talvez por causa da situação em que me encontro, preso na Cadeia,o Sertão, sob o Sol fagulhante do meio-dia, me aparece, ele todo,como uma enorme Cadeia, dentro da qual, entre muralhas de serras pedregosasque lhe servissem de muro inexpugnável a apertar suas fronteiras,estivéssemos todos nós, aprisionados e acusados, aguardando asdecisões da Justiça; sendo que, a qualquer momento, a Onça-Malhada doDivino pode se precipitar sobre nós, para nos sangrar, ungir e consagrarpela destruição.É meio-dia, agora, em nossa Vila de Taperoá. Estamos a 9 de Outubrode 1938. É tempo de seca, e aqui, dentro da Cadeia onde estou preso, ocalor começou a ficar insuportável desde as dez horas da manhã. Pedi entãoao Cabo Luís Riscão que me deixasse sair lá de baixo, da cela comum,e vir cá para cima, varrer o chão de madeira do pavimento superior, ondefuncionava, até o fim do ano passado, a Câmara Municipal. O Cabo LuísRiscão é filho daquele outro, de nome igual, que morreu, aqui mesmo naCadeia, em 1912, na chamada "Guerra de Doze", num tiroteio da Políciacontra as tropas de Sertanejos que, a mando de meu tio e Padrinho, DomPedro Sebastião Garcia-Barretto, atacaram, tomaram e saquearam nossaVila. Tem, portanto, o Cabo todos os motivos de má vontade contra mim.Mas como sou "de família de certa ordem" e lhe dou pequenas gorjetas,abranda essa má vontade de vez em quando. Hoje, por exemplo, quandofiz o pedido, ele me concedeu o cobiçado privilégio de preso-varredor.Abriu a porta de grades enferrujadas, trouxe-me para cá, deixou-me aquisozinho, trancado, varrendo, e foi-se a cochilar na rede da sua casa, quefica no quintal da Cadeia. Aproveitei, então, o fato de ter terminado logoa tarefa e deitei-me no chão de tábuas, perto da parede, pensando, procurandoum modo hábil de iniciar este meu Memorial, de modo a comover omais possível com a narração dos meus infortúnios os corações generosos ecompassivos que agora me ouvem. Pensei: - Este, como as Memórias deum Sargento de Milícias, é um "romance" escrito por "um Brasileiro". Possocomeçá-lo, portanto, dizendo que era, e é, "no tempo do Rei". Na verdade,o tempo que decorre entre 1935 e este nosso ano de 1938 é o chamado"Século do Reino", sendo eu, apesar de preso, o Rei de quem aí se fala.Depois, porém, cheguei à conclusão de que, além de anunciar o tempo,eu devo ser claro também sobre o local onde sucederam todos os acontecimentosque me trouxeram à Cadeia. Não tendo muitas idéias próprias, lembrei-me então de me valer de outro dos meus Mestres e Precursores, o genialescritor-brasileiro Nuno Marques Pereira. Como todos sabem, o "romance"dele, publicado em 1728, intitula-se Compêndio Narrativo do Peregrinoda América Latina. Ora, este meu livro é, de certa forma, um CompêndioNarrativo do Peregrino do Brasil. Por isso, adaptando ao nosso caso as palavrasiniciais de Nuno Marques Pereira, falo do modo que segue sobre o lugaronde se passou a nossa estranha Desaventura: "Uns doze graus abaixo daLinha Equinocial, aqui onde se encontra a Terra do Nordeste metida noMar, mas entrando-se umas cinqüenta léguas para o Sertão dos Cariris Velhosda Paraíba do Norte, num planalto pedregoso e espinhento onde passeiamBodes, Jumentos e Gaviões sem outro roteiro que os serrotes de pedracobertos de coroas-de-frade e mandacarus; aqui, nesta bela Concha, semágua mas cheia de fósseis e velhos esqueletos petrificados, vê-se uma ricaPérola, engastada em fino Ouro, que é a muito nobre e sempre leal Vila daRibeira do Taperoá, banhada pelo rio do mesmo nome." Ora, eu, DomPedro Dinis Ferreira-Quaderna, sou o mesmo Dom Pedro IV, cognominado"O Decifrador", Rei do Quinto Império e do Quinto Naipe, Profeta daIgreja Católico-Sertaneja e pretendente ao trono do Império do Brasil. Poroutro lado, consta da minha certidão de nascimento ter nascido eu na Vilade Taperoá. É por isso, então, que pude começar dizendo que neste ano de1938 estamos ainda "no tempo do Rei", e anunciar que a nobre Vila sertanejaonde nasci é o palco da terrível "desaventura" que tenho a contar.Para ser mais exato, preciso explicar ainda que meu "romance" é, mais,um Memorial que dirijo à Nação Brasileira, à guisa de defesa e apelo, noterrível processo em que me vejo envolvido. Para que ninguém julgueque sou um impostor vulgar, devo finalmente esclarecer que, infeliz edesgraçado como estou agora, preso aqui nesta velha Cadeia da nossaVila, sou, nada mais, nada menos, do que descendente, em linha masculinae direta, de Dom João Ferreira-Quaderna, mais conhecido como El-ReiDom João II, O Execrável, homem sertanejo que, há um século, foiRei da Pedra do Reino, no Sertão do Pajeú, na fronteira da Paraíba comPernambuco. Isto significa que sou descendente, não daqueles reis e imperadoresestrangeirados e falsificados da Casa de Bragança, mencionadoscom descabida insistência na História Geral do Brasil, de Varnhagen:mas sim dos legítimos e verdadeiros Reis brasileiros, os Reis castanhos ecabras da Pedra do Reino do Sertão, que cingiram, de uma vez para sempre,a sagrada Coroa do Brasil, de 1835 a 1838, transmitindo-a assim aseus descendentes, por herança de sangue e decreto divino.Agora, preso aqui na Cadeia, rememoro tudo quanto passei, e toda aminha vida parece-me um sonho, cheio de acontecimentos ao mesmo tempogrotescos e gloriosos. Sou um grande apreciador do jogo do Baralho.Talvez por isso, o mundo me pareça uma mesa e a vida um jogo, onde secruzam fidalgos Reis-de-Ouro com castanhas Damas-de-Espada, ondepassam Ases, Peninchas e Curingas, governados pelas regras desconhecidasde alguma velha Canastra esquecida. É por isso também que, do fundodo cárcere onde estou trancafiado neste nosso ano de 1938 - faminto,esfarrapado, sujo, prematuramente envelhecido pelos sofrimentos aos 41anos de idade - dirijo-me a todos os Brasileiros, sem exceção; mas especialmente,através do Supremo Tribunal, aos magistrados e soldados -toda essa raça ilustre que tem o poder de julgar e prender os outros. Dirijo-me, outrossim, aos escritores brasileiros, principalmente aos que sejamPoetas-escrivães e Acadêmicos-fidalgos, como eu e Pero Vaz de Caminha,o que faço aqui, expressamente, por intermédio da Academia Brasileira,esse Supremo Tribunal das Letras.Sim! Nesse estranho processo, a um tempo político e literário, ao qualestou sendo submetido por decisão da Justiça, este é um pedido de clemência,uma espécie de confissão geral, uma apelação - um apelo aocoração magnânimo de Vossas Excelências. E, sobretudo, uma vez que asmulheres têm sempre o coração mais brando, esta é uma solicitação dirigidaaos brandos peitos das mulheres e filhas de Vossas Excelências, às brandasexcelências de todas as mulheres que me ouvem.Escutem, pois, nobres Senhores e belas Damas de peitos brandos, minhaterrível história de amor e de culpa; de sangue e de justiça; de sensualidadee violência; de enigma, de morte e disparate; de lutas nas estradas e combatesnas Caatingas; história que foi a suma de tudo o que passei e queterminou com meus costados aqui, nesta Cadeia Velha da Vila Real da Ribeirado Taperoá, Sertão dos Cariris Velhos da Capitania e Província daParaíba do Norte.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.