Leia trecho de 'Aspades, ETs. Etc.', de Fernando Monteiro

Aspades, ETs Etc, do escritor e cineasta pernambucano Fernando Monteiro, é relançado em versão digital pela Cesárea no momento em que o autor anuncia que não escreverá mais romances. Leia trecho.

O Estado de S. Paulo

16 de maio de 2014 | 20h49

"Filmes que nunca foram realizados, que ficaram na teia mental do projeto, do roteiro esboçado, ou nem isso (pois o auxílio da caneta já começa a desfigurar a ideia do cinema no estado de ‘pureza’, Logos Lumiérico...) — filmes que foram sonhados na madrugada, filmes que nunca pertenceram à noite nem à manhã (nem ao cineasta), e que nasceram e morreram entre horas de calor e frios de inverno em quartos quentes, filmes que vieram, sorrateiros e perfeitos, e se meteram no meio de sonhos corriqueiros, com uma estranheza tal que você se assustou, no sono inquieto: que preto-e-branco foi mais belo (como o das selvas cinzentas dos primeiros filmes de Tarzan!), que cenários estranhos foram, jamais, tão estranhos — e onde encontrar tais atores, atuando como deuses e desaparecendo?

Os filmes que nunca foram feitos! O cinema do limbo, dos nascimentos de civilizações filmadas pela mente ensonada — e logo entradas em decadência, imediatamente chegadas a ruínas, transformadas em pó de incerteza... quando aí somos acordados, pelo tráfego e pela pressa, para iniciar um documentário sobre teleféricos!”

Esse fragmento de um artigo — publicado no Cinéfilo — sobre o tema aspadiano de filmes fantasmas, imagens apenas entrevistas (no sono, na vida encoberta da imaginação, nos estados alterados) parece prefigurar, em 1976, o que iria ser a gestação de POSTENEBRAS, em meio à modorra de sua nova vida doméstica, agitada apenas pelo debate da política, porta adentro, nas conversas de domingos (sem batizados), quando Aspades tem tempo para dormir durante e depois das conversas de fim de semana sem batizados mas com bacalhoadas, o que vem a dar quase no mesmo no Portugal dos pequeninos, na Lisboa de novos bairros de apartamentos (de Odivelas), entre Fiats e luzes da tardinha acesas sobre restos de comida nas mesas postas para uma pá de gente que come e conversa, casa e batiza, discute e resolve os problemas do país e da Mãe CEE que acena com o brilhante do seu dedinho em gancho... No meio disso, os filmes sonhados não são um escape, não são poesia nem lirismo de domingos monótonos, matéria “literária” no sentido grosseiro da (má) acepção da palavra, mas resto inconsciente daquela que reelabora a realidade, num sentido pós-joyciano (nada a ver com um cinema imediato que mimetizasse falsamente o real tomado como ícone), espécie de nexo do imediatismo fotográfico reconvertido em símbolo ou imagens da “mente atrás da mente” — como diz Aspades —, forno mais frio do que quente, “onde A MULHER DO FIM DA ALAMEDA LINHAS TORRES cozera em fogo brando”, enquanto agora, sem o saber, sem o pressentir quase, ele vai inconscientemente caminhar na direção contrária da narrativa informada pela experiência (“contígua”) e pela memória “indireta”, através de fragmentos unidos pelo que Aspades chamou de “um paralelismo de visão com a janela da morte” (e ninguém entendeu muito bem, pensando que ele quisesse reforçar o que Cocteau já havia dito, ao afirmar que “o cinema é a única arte capaz de flagrar a ação da morte” — o que é também o que Aspades quer dizer, mas tomado de forma mais restrita, num sentido até físico) (...)" 

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