MOHAMMAD ISMAIL/REUTERS
MOHAMMAD ISMAIL/REUTERS

Leia trecho de 'A Filha Favorita', autobiografia de Fawzia Koofi

Na autobiografia 'A Filha Favorita', de Fawzia Koofi, a primeira mulher a se tornar vice-presidente do Parlamento do Afeganistão, em 2005, conta a história de sua vida, que se confunde em muitos momentos com a história social e política do próprio país. Leia abaixo trecho do livro:

O Estado de S. Paulo

18 de outubro de 2013 | 19h22

"Na manhã em que escrevi a primeira carta à minha filha, eu tinha uma reunião política marcada em Badakhshan, província que represento como membro do parlamento afegão. Badakhshan é a província mais ao norte do Afeganistão e faz fronteira com China e Tadjiquistão. É também uma das mais pobres, selvagens, remotas e culturalmente conservadoras do país.

Tem a maior taxa de mortalidade materna e infantil do mundo, em parte em razão da inacessibilidade e da pobreza extrema, mas também por causa de uma cultura que às vezes prioriza a tradição em detrimento da saúde. Um homem raramente busca tratamento hospitalar para a esposa, a não ser que fique claro que ela não vai sobreviver. No momento de dar à luz, essa cultura leva a mulher a passar três ou quatro horas em um parto agonizante. Quando chega ao hospital — na maioria das vezes no lombo de um jumento, depois de viajar por trilhas em montanhas rochosas —, geralmente é tarde demais para salvar mãe e filho.

No dia em que escrevi a carta, fui instruída a não viajar, pois havia uma ameaça crível de que o Taleban planejava me assassinar instalando um dispositivo explosivo improvisado sob meu carro. O Talibã não gosta de mulheres que ocupam posições importantes no governo, como eu, e gostam menos ainda das minhas críticas públicas.

Tentam me matar com frequência.

Ultimamente, as tentativas fogem do normal. Ameaçam meu lar, seguem a caminho do trabalho para colocarem bomba quando meu carro passa, e até atiram contra a escolta de carros de polícia que me protege. Um atentado recente contra meu carro durou meia hora, matando dois policiais. Fiquei dentro do veículo sem saber se sairia dali viva ou morta.

Sei que o Talibã e os outros que querem me silenciar por protestar contra a corrupção e a má liderança de meu país não vão sossegar enquanto eu não estiver morta. Naquele dia, ignorei a ameaça. Já ignorei inúmeras ameaças similares, porque se assim não fizesse, não poderia realizar meu trabalho. No entanto, senti a ameaça. Sempre sinto. Essa é a natureza dela, e os que a proferem sabem disso.

Acordei minha filha Shaharzad, que tem 12 anos, às seis da manhã, e disse que se eu não voltasse da viagem em alguns dias, ela devia ler a carta para a irmã, Shuhra, de 10 anos. Os olhos de Shaharzad, cheios de perguntas, encontraram os meus. Toquei seus lábios com um dedo, dei--lhe um beijo, depois outro na testa de sua irmã, que dormia. Saí do quarto em silêncio e fechei a porta. É sempre difícil deixar minhas filhas para ir trabalhar, mesmo sabendo que talvez seja assassinada. Mas meu trabalho é representar as pessoas mais pobres da nação. Esse objetivo e a criação das minhas duas lindas filhas são minha razão de ser. Não podia, nem naquele dia nem em nenhum outro, decepcionar meu povo."

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