Leia trecho de 'A Arte Moderna na Europa'

Coletânia de ensaios de Giulio Carlo Argan ganha tradução de Lorenzo Mammì

Giulio Carlo Argan,

26 de março de 2010 | 20h27

Leia trecho do livro "A Arte Moderna na Europa - De Hogarth a Picasso", de Giulio Carlo Argan, tradução de Lorenzo Mammì para a Companhia das Letras.

 

"A formação repentina e o desenvolvimento rápido da escola pictórica inglesa no século 18 se explicam justamente com a crítica àquela cultura e, mais precisamente, com a transformação da postura crítica já existente, de genérica para específica e de passiva ou inerte para ativa. Os escritos de Richardson, que marcam justamente a transição da crítica diletantística do 'virtuoso' ou do 'amador' para a crítica científica do 'conhecedor', precedem os primeiros atos daquela escola pictórica; o conjunto de valores julgados é ainda o da arte de tradição clássica (a obra de Richardson, de fato, será muito apreciada por Winckelmann), mas o que muda - tornando-se de genérico e inerte a específico e ativo - é o método e o processo do julgamento.

 

O criticismo inglês tem ainda outras justificativas, e mais profundas.As proibições religiosas, mesmo não querendo exagerar suas consequências, reduziram necessariamente o campo de ação da arte figurativa, cuja função civil, durante todo o século XVII (à parte uma ou outra decoração), se limitara ao retrato. Quando um 'gênero', como era o retrato no século XVII, deixa de ser parte de um sistema de gêneros (e, portanto, deixa de ser um gênero que possa ser avaliado não apenas por si, mas também em relação a uma categoria mais ampla e 'universal' de valores estéticos), a avaliação da obra de arte pode depender apenas da verificação empírica da semelhança ou, mais frequentemente, da maneira com que a obra responde a determinadas exigências sociais, como as aspirações ou as ambições dos comitentes. O problema dos conteúdos religiosos ou mitológicos ou históricos, o próprio problema da natureza como campo aberto à experiência ou como receptáculo fechado de significados alegóricos, não pode interessar à cultura artística inglesa: uma pessoa hgumana é um objeto social, mais do que natural, e de fato o retrato inglês do século XVII, em grande parte dependente de Van Dyck, é 'heroico' e não realista. Em todo caso, o retrato, não envolvendo temáticas religiosas, é objeto de uma crítica livre, e de uma crítica que se concretiza sempre e necessariamente no julgamento da obra singular, que implique ou não princípios gerais do gosto. Os próprios princípios do gosto, aliás, pertencem antes ao domínio das opiniões do que ao das ideias, tanto que o complexo sistema teórico barroco italiano e francês se reduz, na Inglaterra, à grand manner, que, afinal, é a feitura larga e solene, mas também solta e discursiva do retrato 'heroico'."

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.