Leia trecho de '1929', de Ivan Sant’Anna

"Em Hollywood,o ator Charles Chaplin e o compositor Irving Berlin foram jantar juntos. Chaplin ficou surpreso quando Berlin - cuja canção 'Blue Skies', escrita três anos antes, liderava as paradas de sucesso - lhe disse que tinha vários milhões de dólares em ações.

23 de abril de 2014 | 18h08

'Você está louco, Irving', o comediante censurou o amigo. 'O mercado está se esfarinhando. Você vai perder uma fortuna. Eu liquidei minha carteira na primavera do ano passado.'

'Ano passado?', Berlin abriu um sorriso de deboche. 'Então, você deixou de ganhar uma fortuna. Perdeu toda essa alta.'

'Mas não vou perder a baixa. Eu já disse. O mercado vai levar um tombo gigantesco. Liquida tudo.'

'Não se ofenda, Charlie', o compositor assumiu um ar de censura, 'mas eu acho esse negócio de vender impatriótico. Antiamericano. Eu vou continuar comprando todos os meses. Na alta, na baixa, não quero saber. Parte do que eu ganho irá sempre para o mercado de ações.'

O dia seguinte provaria que Charles Chaplin estava certo. E as próximas seis décadas, que Irving Berlin - cuja morte só aconteceria aos 101 anos - não estava de todo errado. Mas só alguém com a determinação e a tenacidade daquele bielorrusso/americano de 41 anos teria nervos para suportar os acontecimentos da quinta-feira, 24 de outubro de 1929, quando os americanos, sem acreditar no que viam, pararam para acompanhar o terremoto que tomou conta de Wall Street."

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