Leia trecho da biografia da cantora Maysa

Leia trecho do capítulo É preciso dizer adeus (1958), da biografia Só numa Multidão deAmores, do jornalista Lira Neto, que a editora Globo começa a colocar nas livrarias nesta quinta-feira, 19.Naquela madrugada em Copacabana, de vestido branco sem alças e usandoum colar de pérolas autênticas que dava seis voltas no pescoço, ela cantaracomo nunca. Ninguém pode calar dentro em mim esta chama que não vaipassar. É mais forte que eu e não quero dela me afastar. Estava alguns quilos acima do peso. O início de um queixo duplo e as maçãs rechonchudas dorosto arredondavam-lhe as expressões. Mas os olhos, delineados com lápispreto e capricho, tinham o mesmo verde e o ar imperativo de sempre.Como de costume, cantava de nariz empinado, com atitude superior,como se fulminasse a platéia com o olhar. Só digo o que penso, só faço o quegosto e aquilo que creio. Ao fim da última canção, imóvel no centro do palcosob a luz prateada do refletor, foi aplaudida de pé durante cerca de cincominutos. Antes de desaparecer por trás da cortina de veludo escuro, nemsequer agradeceu às palmas que vinham das mesas imersas na penumbra eenevoadas pela fumaça dos muitos cigarros. Os que a viram pela última veznaquela noite dizem que bebeu uma dose de vodca nos camarins e partiusozinha em direção ao seu apartamento, localizado ali perto, na rua Inhangá,45, nas imediações do Copacabana Palace.Aos 22 anos, a jovem Maysa era uma das estrelas mais bem pagas damúsica brasileira. A estréia da temporada na boate La Bohème, que lherenderia um cachê de 140 mil cruzeiros por semana, cerca de 30 mil reais(valor considerado astronômico para os padrões da época), havia sido umsucesso. Era rica, famosa e cortejada por homens que dariam tudo paradividir um drinque com ela naquele abafado fim de noite do verão carioca.Mas, ao contrário do que sempre fizera depois de cada um dos shows,Maysa não aceitou o convite dos amigos para esticar a madrugada, parapular de bar em bar, esquecer o relógio e bater perna pela constelaçãode boates e restaurantes que compunham a paisagem boêmia do bairro.Enquanto os garçons ainda serviam doses generosas de cuba-libre, hifie uísque aos clientes da La Bohème - e quando estes não haviam serefeito do vendaval emocional provocado por mais uma apresentação deMaysa -, ela chegou em casa, tirou a roupa e abriu a torneira da banheira. Era 11 de fevereiro de 1958, uma terça-feira. Ninguém pode dizer exatamenteo que houve entre aquelas quatro paredes ladrilhadas de branco.Só se sabe que os vizinhos foram acordados por um grito de mulher nomeio da noite. Nos dias seguintes, a notícia estava no rádio e nos jornais.Maysa tentara se matar, cortando o pulso esquerdo com gilete.* * *A imprensa não pôde deixar de explorar uma trágica coincidência: no diaanterior, 10 de fevereiro, o compositor Assis Valente, autor de clássicoscomo ?E o mundo não se acabou? e ?Uva de caminhão? - imortalizadosna voz de Carmen Miranda -, cometera suicídio, ingerindo uma misturafatal de guaraná com formicida. Maysa, contudo, negou com veemênciaque houvesse atentado contra a própria vida. Fez questão de receberos jornalistas em casa e, com o braço enfaixado, apoiado em uma tipóiaimprovisada com um finíssimo lenço de seda, disse que tudo não passarade um pequeno acidente doméstico. ?Eu tentava abrir a porta do meuquarto quando minha mão resvalou, partindo o vidro?, explicou aos repórteres,exibindo os cacos da vidraça ao clique dos fotógrafos. ?Imediatamenteprocurei um médico conhecido, que me fez os curativos?, afirmou.Ninguém acreditou em história tão prosaica. Não era a primeira vez queMaysa, a deusa das canções de dor-de-cotovelo, a rainha absoluta da música de fossa, aparecia com um curativo no pulso, alegando ter sofrido umreles acidente caseiro.Um mês antes, em janeiro, ela adentrara às 5h45 da manhã no setorde emergência do Miguel Couto, um dos mais movimentados hospitaisdo Rio de Janeiro, com uma hemorragia no pulso esquerdo provocada porum ferimento com objeto cortante. Como da segunda vez, garantira aosjornalistas que não tentara o suicídio. ?Vocês vieram saber se eu morri??, indagou-lhes à queima-roupa, com o estilo habitualmente despachado. ?Como estão vendo, estou mais viva do que nunca, muito embora esteja amolada com esses boatos que correm a meu respeito?, prosseguiu, no mesmo diapasão.Um detalhe não passou despercebido ao jornal Diário Carioca, que noinício da década de 1950 modernizara o estilo dos textos na imprensa brasileira:?Maysa trazia uma grossa pulseira que lhe escondia o pulso esquerdo e,apesar do calor, usava uma blusa de mangas compridas?. Poucas horas antesdaquela entrevista, a secretária particular da cantora, Zoraide Aun, mandaraembora outro grupo de repórteres, negando qualquer tentativa de suicídiopor parte de Maysa. Como prova, exibiu aos jornalistas um aparelhinho queera uma das novidades tecnológicas recém-chegadas ao Brasil, junto com oradinho de pilha, a televisão e a lambreta: o barbeador elétrico.?Nesta casa não se usa gilete?, assegurou Zoraide.Pela versão da secretária, Maysa escorregara na hora do banho ao pisarno sabonete. Caíra e machucara o braço. Mas a redação de O Jornal revelariaaos leitores um suposto boletim surrupiado dos prontuários do MiguelCouto, em que se lia a seguinte anotação:Maysa Matarazzo, brasileira, branca, 22 anos, residente na rua Inhangá, 45, apartamento 704. Etilismo agudo, excitação psicomotora e escoriações naregião do pulso esquerdo em conseqüência de tentativa de suicídio.Ainda assim, Maysa continuou negando o episódio e disse que o talboletim era falso como uma cédula de três cruzeiros. E, mais uma vez,pediu à imprensa para deixá-la em paz. ?Olhem, tenho um filho de um anoe oito meses, uma carreira pela frente e um grande futuro. Vocês achamque eu pensaria em me matar, eu, que consegui tudo isso com apenas 22anos??, interrogou, de forma dramática, ao Diário Carioca. Os apelos deMaysa foram em vão. O comportamento pouco ortodoxo fazia dela umalvo fácil para o apetite da mídia. As especulações sobre os exatos motivosdas duas prováveis tentativas de suicídio eram as mais variadas, mas todasapontavam para causas passionais. Os jornais que bisbilhotavam a vida dacantora afirmavam que ela estava arrasada porque, dias antes, brigara feioe pusera para fora de casa aos pontapés um dos muitos namorados dessaépoca, o playboy Marco Túlio Galvão Bueno, conhecido nas rodas noturnasdo Rio como ?Marquinho, o bom?.As revistas de fofoca preferiram ventilar a hipótese de que o caso atéentão secreto de Maysa com Cesar Thedin - arquiteto, empresário e boêmioque pouco mais tarde casaria com a atriz Tônia Carrero, considerada àépoca a mulher mais bonita do Brasil - havia sido descoberto pela namoradaoficial do galã, a também cantora Elizeth Cardoso. A revelação daqueletriângulo amoroso teria provocado um sério atrito entre as duas colegasde ofício (e amigas de longa data), o que deixara Maysa mortificada. Mashouve quem nunca apostasse uma estampa de sabonete Eucalol em tal versão.?Lembro que tempos depois tanto Maysa como Elizeth me contaramessa história da primeira roubar o namorado da segunda entre gargalhadas?,garantiria o compositor, produtor musical, escritor e poeta Hermínio Bellode Carvalho, amigo de ambas.O que se sabe com certeza é que, naquela mesma semana em queteria tentado o suicídio pela primeira vez, Maysa deixara a ver navios a platéiada boate em que se apresentaria, o Club 36, na rua Carvalho de Mendonça,em Copacabana. Desaparecera poucos minutos antes do horárioprevisto para subir ao palco e, sem avisar ninguém, fora assistir ao showde Elizeth Cardoso a duas quadras distantes dali, em uma das mesas doAu Bon Gourmet - ?o lugar onde melhor se come no Rio à noite?, dizia-se.Quando Elizeth viu a amiga, cumprimentou-a do palco, efusivamente.Maysa levantou-se e gritou a frase que ficaria célebre: ?Meu maior desejoera ser homem, preto, pianista e bêbado. Como vocês sabem, não conseguiser homem, negro, nem pianista?, o público riu e Maysa continuou: ?porémainda tenho um sonho: ser Elizeth Cardoso?.Casos como aquele estampavam as páginas dos jornais logo no diaseguinte e ajudavam a fazer de Maysa o assunto predileto das colunasque viviam de chafurdar a vida alheia. Apesar de reclamar do assédio daimprensa, o fato é que ela mesma se divertia com as manchetes e notinhasmaldosas que pipocavam a seu respeito. Colecionava com desvelo cadarecorte de jornal ou de revista que trouxesse seu nome, ainda que em boaparte deles fosse descrita como uma mulher atormentada pela bebida eacossada pelas desilusões amorosas. (...)Quem se debruçar sobre a coleção de jornais do Rio de Janeiro e de SãoPaulo naquele ano de 1958 vai chegar a uma assombrosa constatação: entre1o de janeiro e 31 de dezembro não houve um único dia - e isso, acredite-se, não é força de expressão - em que Maysa não tenha sido notícia empelo menos um órgão da imprensa carioca ou paulista. Quando não estavasendo incensada nas páginas de crítica musical ou torpedeada nas colunasde fofocas, a onipresente Maysa rendia assunto quente até para o noticiáriopolítico. Diante da enorme popularidade que desfrutava, surgiram rumoresde que ela havia sido sondada pelo diretório do Partido Trabalhista Brasileiro(PTB), no Rio, sobre uma possível candidatura a deputada federal. A idéiateria partido de ninguém menos que João Goulart, o Jango, vice do presidenteJuscelino Kubitschek.

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