Leia poesia 'Celebração da infância'

Escrita por Adonis, poesia está no livro 'Poemas' , da Companhia das Letras, tradução de Michel Sleiman

15 de junho de 2012 | 22h00

Lembro a loucura

apoiando-se, pela primeira vez, no travesseiro do juízo:

eu falando com meu corpo.

Meu corpo era um pesamento

que eu escrevia em vermelho:

o vermelho era o mais belo assento do sol

e todas as outras cores rezavam 

em cima de um tapete vermelho.

A noite era outro lampião.

Em cada galho havia um braço:

carta carregada pelo espaço

confirmada pelo corpo do vento.

O sol insistia, nesses tempos,

se vestia de bruma

em nossos encontros:

era reprimenda da luz?

Ah meus dias idos...

caminhavam sonâmbulos

e eu apoiado em seus ombros.

O amor e o sonho são parênteses

onde interponho o meu corpo

e nisso conheço o mundo.

Muitas vezes

vi o vento voar com pés de erva

vi o caminho dançar com pés de vento.

Meus desejos são rosas

manchadas por meus dias.

Cedo me feri

cedo soube

que as feridas me criaram.

Não paro de andar atrás da criança

que não para de andar dentro de mim.

Agora ela para no topo de uma escada de luz

à procura de um canto para descansar

e de novo ler o rosto da noite.

Se a lua fosse uma casa

meus pés recusavam cruzar sua soleira:

eu seria tomado pela poeira

que me traz o vento das estações.

Caminho

ponho uma mão no ar

e a outra nas tranças que imagino.

A estrela é também uma pedrinha

no campo astral.

Só quem se misturou com o horizonte

pode abrir um caminho.

A lua, uma velha...

seu assento é a noite, seu cajado é a luz.

O que direi àquele meu corpo

que deixei entre as ruínas da casa onde nasci?

Não. Só poderão contar minha infância

as estrelas que cintilam em cima daquela casa

e pontilham com seus passos as direções da noite.

Minha infância ainda

nasce entre as mãos de uma luz

cujo nome desconheço e me dá nome.

Aquele rio.

Fazia dele um espelho

para perguntar-lhe sobre suas tristezas,

das tristezas fazia chuva

para imitar as nuvens.

Pequena aldeia tua infância

e apesar disto

não ultrapassarás suas fronteiras

por mais que te afaste a viagem.

Seus dias são lagos

suas lembranças corpos flutuantes.

Tu que caíste das alturas

nas montanhas do passado

como poderás subi-las

de novo?

Tempo: porta trancada

tento não consigo abri-la.

Meu encantamento está cansado

meus amuletos, dormentes.

Nasci numa aldeia

pequena, reclusa, como o útero

e ainda não saí dela.

Meu amor vai pelo oceano

não pelas praias.

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