Leia poemas e letras de música de Waly Salomão

O poeta Waly Salomão (1943-2003) é homenageado com Poesia Total, que reúne seus livros e letras de música. Confira dois poemas e duas músicas.

O Estado de S. Paulo

23 de maio de 2014 | 22h30

Poemas

Barroco

Mundo e ego: palcos geminados.

Quero crer que creio

E finjo que creio

Que o mundo e ego

Ambos

São teatros

Díspares

E antípodas.

Absolutos que se refratam/difratam...

Espelhos estilhaçados que não se colam.

Entanto são

Ecos de ecos que se interpenetram

Partículas de ecos ocos, partículas, partículas de ecos plenos que se conectam

Aí cosmos são cagados, cuspidos e escarrados pelo opíparo caos

E o uso do adjetivo está correto

Pois que o caos é um banquete.

Fantasmas de óperas.

Ratos de coxias.

Atos truncados.

Há uma lasca de palco

em cada gota de sangue

em cada punhado de terra

de todo e qualquer poema.

Sargaços

(para Maria Bethânia)

Criar é não se adequar à vida como ela é,

Nem tampouco se grudar às lembranças pretéritas

Que não sobrenadam mais.

Nem ancorar à beira-cais estagnado,

Nem malhar a batida bigorna à beira-mágoa.

Nascer não é antes, não é ficar a ver navios,

Nascer é depois, é nadar após se afundar e se afogar.

Braçadas e mais braçadas até perder o fôlego

(Sargaços ofegam o peito opresso),

Bombear gás do tanque de reserva localizado em algum ponto

Do corpo

E não parar de nadar,

Nem que se morra na praia antes de alcançar o mar.

Plasmar

bancos de areias, recifes de corais, ilhas, arquipélagos, baías,

espumas e salitres,

ondas e maresias.

Mar de sargaços

Nadar, nadar, nadar e inventar a viagem, o mapa,

o astrolábio de sete faces,

O zumbido dos ventos em redemoinho, o leme, as velas, as cordas,

Os ferros, o júbilo e o luto.

Encasquetar-se na captura da canção que inventa Orfeu

Ou daquela outra que conduz ao mar absoluto.

Só e outros poemas

Soledades

Solitude, récif, étoile.

Através dos anéis escancarados pelos velhos horizontes

Parir,

desvelar,

desocultar novos horizontes.

Mamar o leite primevo, o colostro, da Via Láctea.

E, mormente,

remar contra a maré numa canoa furada

Somente

para martelar um padrão estóico-tresloucado

De desaceitar o naufrágio.

Criar é se desacostumar do fado fixo

E ser arbitrário.

Sendo os remos imateriais

(Remos figurados no ar pelos

círculos das palavras.)

Música

De Volta Para o Futuro

Em matéria de previsão eu deixo furo

Futuro, eu juro, é dimensão

Não consigo ver

Nem sequer rever

Isto porque, no lusco-fusco

Ora pitomba,

Minha bola de cristal fica fosca

Mando bola no escuro

Acerto o tiro na boca da mosca

Ouras tantas giro a Terra toda às tontas

Dobro o cabo das tormentas, rebatizo Boa Esperança

E vou pegando pelo rabo a lebre de vidro,

Do acaso por acaso

Em matéria de previsão só deixo furo

Futuro, eu juro, é dimensão

Vejo bem no claro

E tão mal no escuro

Minha vida afinal navega tal e qual

Caravela de Cabral

Um marinheiro mete a cara na janela e grita

Sinal de terra, terra à vista

Tanto faz, Brasil ou Índia Ocidental, Oriental

Ó sina, começa sempre a dança

Recomeça, sempre recomeça a dança da sinuca

Sempre recomeça a dança a mesma dança da sinuca vital

Assaltaram a Gramática

Assaltaram a gramática

Assassinaram a lógica

meteram poesia

na bagunça do dia a dia

Sequestraram a fonética

Violentaram a métrica

Meteram poesia

onde devia e não devia

Lá vem o poeta

com sua coroa de louro,

Agrião, pimentão, boldo

O poeta é a pimenta do planeta

(Malagueta!)

 

Tudo o que sabemos sobre:
Literatura

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.