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Leia poemas de Adelia Prado

Depois de três anos, Adélia Prado retorna à poesia com ‘Miserere'. O livro traz 38 poemas, em que a maior poeta brasileira viva (ao lado de Gullar e Manoel de Barros) tanto flerta com a metafísica como se atém aos detalhes do cotidiano, mas, acima de tudo, aposta na grandeza das pequenas coisas. E, como não poderia ser diferente, sua poesia estabelece um diálogo com Deus, uma ponte com a transcendência e uma crença na perenidade da carne e na eternidade da alma.

06 de dezembro de 2013 | 21h30

Leia alguns deles a seguir:

"Eu sou uma mulher sem nenhum mel

eu não tenho um colírio nem um chá

tanto a rosa de seda sobre o muro

minha raiz comendo esterco e chão.

Quero a macia flor desabrochada

irado polvo cego é meu carinho.

Eu quero ser chamada rosa e flor

eu vou gerar um cacto sem espinho."

(Senha)

"A Bíblia, às vezes, não me leva em conta,

tão dura com minha gula.

Nem me adiantou envelhecer,

partes de mim seguem adolescentes,

estranhando privilégios.

Nunca me senti moradora,

a sensação é de exílio.

Criancinha de peito, essa já sabe,

seu olhar muda quando desmamada.

Tudo é igual a tudo,

mas por agora a unidade nos cega,

daí o múltiplo e suas distrações.

Deus sabe o que fez.

Mesmo com medo escrevo

que é 1º de julho de 2011.

Parece póstumo, parece sonho.

Alguma coisa não muda,

minha fraqueza me põe no caminho certo.

Deus nunca me abandonou."

(Sala de Espera)

"Os peixes me olham

de suas postas sangrentas.

Falta modéstia às frutas.

De ponta a ponta, barracas,

quero fugir dali

acossada pelos tomates

de inadequado esplendor.

Compro dois nabos para comê-los crus,

feito um eremita em sua horta.

Não por virtude,

por orgulho talvez travestido do júbilo

que me vendeu o diabo

em sua tenda de enganos."

(Feira de São Tanaz)

"A Deus entrego meus pecados,

entrego-os a quem pertencem,

não a Satanás que é um dos nossos

e sofre também o tormento dos filhos

que têm o Pai ocupado em alimentar pardais.

Nem torres que tocam a lua,

ou o que quer que nos roube o fôlego,

fazem assomar Seu rosto.

Por que nos abandonastes?

Vosso Filho soube, na obediência da morte,

e o que se viu foi só um tremor rasgando a pele da terra.

Alguém no derradeiro instante exclamou Oh! Oh!

E fechou os olhos.

Eu não tenho aonde ir, tudo me ignora,

ignoro tudo, pois sou natureza.

Um beija-flor enfia numa flor natalina

o seu bico comprido e come e bebe e voa,

não pousa no meu ombro,

não bebe do meu olho a água de sal.

Por agora, o que me faz prosseguir

é sua indiferença. Esta ausência de milagre."

(Lápide para Steve Jobs)

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