Leia poemas da israelense Tal Nitzán

A poeta israelense Tal Nitzán tem seu trabalho reunido pela primeira vez em livro no Brasil. Leia a seguir quatro poemas traduzidos por Moacir Amâncio para O Ponto da Ternura, que está sendo lançado pela Lumme:

O Estado de S. Paulo

21 de fevereiro de 2014 | 18h09

amor

em pleno verão maligno

o quarto repleto

do delicado outono

Coisa silenciosa

Nada mais silencioso

do que os golpes que se abatem sobre os outros,

não há ameaça mais inofensiva

à nossa paz de espírito satisfeito.

É muda a derrota nos seus olhos,

os seus braços

permanecem imóveis.

Que silêncio agradável.

A não ser por um ruído agudo, penetrante,

que perturba sobretudo pela manhã,

mas pode-se abafá-lo facilmente

com o sussurro relaxante das folhas do jornal.

Antes que se amontoem as ruínas sobre eles

já estarão sepultadas sob o suplemento de variedades,

a xícara de café pela metade,

a batida de porta

em nossa casa,

que continua em pé.

*

Quem nasceu sem uma língua mãe

caminhará o resto da vida

em sua própria trilha

Levará o porão na cabeça

sua casa não saberá

que  é a casa dela.

Às vezes um pássaro morto

pousará aos seus pés

fingindo uma sedutora folha de outono

A bala de outros tempos derrete em sua língua

o prego enferrujado ainda está em sua garganta

quem nasceu sem uma língua mãe,

já não soltará a língua de menina.

Em que terra (fragmentos)

Eu não conheço todos os que amassam minhas faces, remexem meus cabelos, molham meu rosto de beijos. Este é um porto, o navio que se ergue sobre nós é igual a uma montanha, e ainda que faça calor vestiram-me com um casaco de capuz igual ao da Chapeuzinho Vermelho. Chocada, eu observo minha avó. Até hoje eu achava que só as crianças choravam.

*

Esta é a primeira coisa que descobri sobre a cidade nova: os prédios são colados uns aos outros, uma peça só, como um bando de crianças que impedem o caminho a um garoto cercado na calçada. A segunda coisa: também chove no verão.

*

Eu  preparo a sentença na cabeça e verifico se lembro as palavras e se sou capaz de expressá-las todas da maneira correta (é preferível palavras sem R). A conversa já seguiu adiante.

*

Olhos arregalados durante a siesta. O cobertor está apertado em mim e preso sob o colchão. Jamais ficarei tão desperta. Proibido levantar, protestar, falar alto, fazer-se ouvir. Proibido. Espero pelas quatro horas. De repente, um prego enferrujado no parapeito da janela. Eu o pego, coloco-o na língua. Engulo. Agora quero gritar, mas nenhuma voz me sai da garganta.

*

Eu contenho o impulso, estendo as mãos. Não fosse a vizinha delatora que acenou para mamãe pela janela, e mamãe que correu da cozinha e me arrancou do peitoril do terraço, teria conseguido pular.

*

Depois que todos os assuntos tinham sido espremidos até o fim, a conversa em volta da mesa morreu. Todos colam os olhos em mim, na criança. Esta criança é gaga e teimosa. Ela não os salvará.

*

- Você lembra que uma vez entrou uma víbora no jardim de infância?

- Não. Eu tinha medo só dos meninos.

*

Eu me sento na margem da piscina, agito os pés na água funda. Alguém me empurra para dentro. Talvez não tivesse empurrado caso soubesse que eu não sei nadar, penso indo para baixo. Vou a pique até os dedos dos meus pés atingirem o fundo e então eu subo. Tiro a cabeça da água e sei que agora eu devo gritar “socorro!”, antes de afundar de novo, mas esqueci em que país estou e em que língua eu preciso gritar.

História curta

Entre nós já não há quem se lembre

há quanto tempo esperamos

pela onda branca e cega que apagará o

que basta lembrar para que volte

a nos apertar o peito de manhã

e a traqueia à noite.

Porque o enxame de formigas repelido

volta a enegrecer nossa casa, e a água fervente

das xícaras de porcelana atinge nossos rostos,

e facas, enjoadas da carne dos morangos,

agora procuram os dedos.

Quando se acalmarão os pedaços de papel que circulam pelo ar,

se aquietarão

no pó inúteis farrapos de sortilégio?

O que soava como chuva era o lixo da construção

jogado num monte de detritos,

o que soava como um gemido era um gemido,

há tempos precisamos de uma nova desgraçapara acabar com o que sobrou da nossa desgraça. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.