Leia poema As Mortes Sucessivas, de Adélia Prado

Muita gente chorou quando a escritora mineira Adélia Prado leu seu poema "As Mortes Sucessivas" para a platéia da 4.ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Confira:Quando minha irmã morreu eu chorei muito e me consolei depressa. Tinha um vestido novo e moitas no quintal onde eu ia existir. Quando minha mãe morreu, me consolei mais lento. Tinha uma perturbação recém-achada: meus seios conformavam dois montículos e eu fiquei muito nua, cruzando os braços sobre eles é que eu chorava. Quando meu pai morreu, nunca mais me consolei. Busquei retratos antigos, procurei conhecidos, parentes, que me lembrassem sua fala, seu modo de apertar os lábios e ter certeza. Reproduzi o encolhido do seu corpo em seu último sono e repeti as palavras que ele disse quando toquei seus pés: ´deixa, tá bom assim´. Quem me consolará desta lembrança? Meus seios se cumpriram e as moitas onde existo são pura sarça ardente de memória. Poema integrante do livro "Bagagem", de Adélia Prado, publicado pela Editora Record

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