Leia 'O Herói Nanico', conto inédito de Dalton Trevisan

Ele de pé, eu sentado, ambos do mesmo tamanho. Fala comigo, mas não me vê. Só tem olhos (uai! chispas furtivas de volúpia) para as lindas mocinhas da loja. Essas pérfidas que guardam distância prudente da sua mãozinha pequena, mas boba.

Dalton Trevisan,

21 de novembro de 2009 | 06h00

 

Garboso no jeans e tênis incrementado. Seriam da loja de criança? Vigia a passagem da gerente e dela esconde o copinho de café – toma três a quatro, com bastante açúcar.

 

Um forte, desafia de peito aberto a legião dos bárbaros de Golias. Sacola branca no ombro, correndinho no passo miúdo e rebolante, empinando a nalguinha e – macho não sente frio – sempre de manga curta.

Se esgueira pela cidade, cuidoso de não ser atropelado, pisoteado, esmagado por uma pata de gigante caolho solto nas ruas. Ninguém nunca o desvia – sai vocêzinho da frente, e rápido.

 

Eu te saúdo, valentão do mundo.

 

Ó maldito mundo, onde todos – exceto o nosso herói! – têm três metros de altura. Ai, o eterno torcicolo de olhar sempre para o alto. Nas ruas à mercê desses brutamontes que, entretidos com celulares e fones de ouvido, podem já espezinhá-lo – uma folha seca chutada pelo vento.

 

Ó grandes barões de negócios! Ó míseros caçadores míopes de moscas!

 

Santuro se chama, Primo. Não admite apelido, exige por inteiro o nome. Embora mal chegue à altura da mesa, faz todo o serviço externo da loja, paga as contas no banco, despacha carta e impresso, reconhece firma.

 

Aprendeu a aceitar o nanismo, sem protesto. Um capricho da natureza? Pois sim. Uma falseta de Deus? Que seja. Arrostaria os rinocerontes das ruas e os mastodontes da vida com as suas diminutas forças e armas – ainda fossem de mentirinha.

 

Verdade que baixinha a mãe, mas não o pai, alto e bonitão. Por ele desdenhado, que o enjeita e não lhe reconhece a bravura.

 

– Você é que devia ter morrido. Não o teu irmão Paulo!

 

Bravura e grandeza. Na sua batalha obscura, não menos épica, um guerreiro impávido colosso, ombro direito curvado ao peso da sacola. O ladrão, ao arrebatá-la, arrasta-o com ela?

 

Descuidoso, leva o seu dinheiro no bolso traseiro da calça. Se alguém o adverte do risco, já se encrespa:

 

– Pilantra comigo nenhum se arrisca!

 

De repente, um alvoroço – gritinhos e risos nervosos – na roda de garotas, o que foi? não foi? foi o nosso herói que passou. Tremei, pais de família – ele vai à caça!

 

O maior assanhado por moça. E, bobo não é, prefere as bonitas. Com elas gasta o salário, assume dívida, paga juro abusivo. Ai, os banquetes da vida – os mais suculentos! – fora de alcance. Elas, as suas deusas, se recusam a enxergá-lo, essa mínima formiguinha no ínfimo chão.

 

Não basta se fazer mais pequenino para espertar o instinto materno das divas. Anjinho, sim. Mas perverso. Deve aliciá-las com lanche e presente, relógio de pulso para uma, pacote de bombom para outra.

 

Insiste em beijinho na face das bancárias, que se curvam, divertidas e meio assustadas. Pergunta uma delas:

 

– Mais alguma coisa?

 

E o nosso herói:

 

– Só me falta você!

 

Lá se vai rindo gostoso e sacudindo a bundinha alegre.

 

Única feita visitou o 4 Bicos, famoso palácio do prazer. Com o taxista esperando no pátio, esbanjava numa tarde o salário do mês. Forte vocação, já se vê, de formiga pródiga.

 

Ao ecoar no relógio da Catedral a sexta pancada do crepúsculo se retira o funcionário exemplar e no fundo do beco aponta o nosso herói nanico.

 

Ao sol prefere a luz negra dos inferninhos.

 

Lá é amigo do rei do pedaço. Bem aceito na barra pesada, um tipo de mascote safado. Toma todas: cerveja, rum, conhaque, vinho, uísque – o que vier. Sempre alguma proeza a contar.

 

Olhinho aceso pelas garçonetes e putinhas do Hula-Hula. Acertado o preço, vai com a peça ao hotelzinho suspeito da São Francisco. Priápico, vangloria-se do bom desempenho, a fama indiscutida dos anões.

 

Ainda bem que, deitadas, todas ficam – ó maravilha! – do seu tamanhinho.

 

Pena que, ao acordar, o bolsinho revirado no avesso – mais uma e outra vez?

 

Único assunto as mocinhas bonitas, família ou programa, de todas cativo. A elas dedica e oferece a minúscula vida. Além de consumir o salário, solta cheque sem fundo, honrado afinal pela mãezinha indulgente.

 

Três da manhã, desperta o nosso herói, sedento, olhinho mortiço. Epa! surrupiada a jaqueta nova – em que bar? por qual vigarista? E o reloginho de pulso – epa! digo eu, mais um! Até a cuequinha, ó Senhor, no quarto de encontros amorosos?

 

Nu, ao lado da cama – ainda menor descalço. A cabeçorra no corpo de garoto. Tristinho de morrer, infeliz, quebradiço de tão frágil.

 

E sempre que se vê no espelho, orra! tem de olhar pra baixo.

 

De palavra polissílaba engole no mínimo uma delas. Divide a humanidade em inibidos e exibidos. Ele é exibido (epa! uma sílaba de menos), já foi ini...do. Agora corre intimorato à luta. Telefona a uma de suas queridas e convida para o chazinho.

 

– Posso levar o meu noivo?

 

A resposta da ingrata e linda. Mas não se abate. Outra será menos difícil.

 

Só de criança não gosta – curiosa, indiscreta, cruel. Como perdoá-la, se não para de crescer, a desgracida? Rodeiam-no em grupo, querem tocá-lo, boquiabertas. Uma corcova, oba! esfregá-la para dar sorte. Um bobo de circo? Uma aberração? Um bichinho de estima?

 

– Veja, mãe. O hominho, que engraçado... Deixa brincar com ele?

 

A pronta resposta:

 

– Mais bonita é a nossa mãezinha. Que tal eu e ela? O joguinho de duas costas?

 

Bem se perturba ao cruzar com outro da sua pequenice. Tropeça no vazio, faz que não vê. Mais triste quando em fantasia colorida de palhaço na porta de uma loja.

 

Mas não se entrega. Já engole um copinho de café atrás do outro, com muito açúcar. Tão aflito, sempre um pingo preto ou pó branco na ponta do narigão rombudo e torto.

 

– Tudo bem, ainda bem.

 

Não tudo. Mesmo para o nosso volantim audaz na corda bamba – sem vara e sem rede.

As madrugas alegres, o mulherio, um cigarro aceso no outro, a bebida falsificada. Mais quantos Gardenal para os nervos?

 

Sim, o nosso herói... O mal sagrado de santos e césares.

 

Febre e taquicardia, 108 bpm.

 

Valoroso, morre, mas não se rende. Óculo escuro, desgrenhado, pudera, se recolheu às cinco da matina. Bacanal na casa de mulheres, excesso de conhaque e cerveja.

 

Desta vez discreto sobre a atuação na cama. E o novo remédio que devia tomar a cada quatro horas?

Perseguido pelo sonho recorrente com o pai. Manso e humilde (o que nunca foi), o velho déspota se queixa:

 

– Ai, o que me aconteceu?

 

E quem diria! Também ele... um pigmeu.

 

– Olhe só pra mim!

 

O menor anão do mundo.

 

Já não pode o tirano implacável, ah, não mais! perseguir e ameaçar o filho. Que se ajoelha para entender o fiapo de voz lá embaixo:

 

– O culpado não sou eu.

 

Compassivo:

 

– Sei, pai. Eu sei.

 

Rentezinho ao chão, o cicio rouco de fúria:

 

– É você. Só você!

 

E sem aviso a paixão alucinada do nosso herói pela famosa Otília. Negros olhos sem fundo, as longilíneas pernas, oh, sim, coxas fosforescentes no escuro.

 

A sofredora mãe se assusta com as exigências de dinheiro:

 

– Meu filho, meu filho. Não seja bobo. Essa fulana não presta.

 

– Se você visse, mãe, como é bonita!

 

– Mais bonita, mais traidora.

 

– A senhora não conhece.

 

– Moça má engana bem. Isso eu sei.

 

A loucura pela Otília (que, salvação dele, fugiu com um taxista gordo de bigodinho) durava trinta e um dias e cinco cheques sem fundo.

 

Na pontinha do pé forceja para abarcar – ai, tão curtos não fossem os braços! – a árvore florida dos prazeres e, nos galhos mais altos, colher os frutos proibidos chamados Soninha, Rosinha, Claudinha, quantos mais?

 

Bendita e louvada primavera. A tentação das mil garotas em flor pra cá pra lá. Vestido branco de musselina... minissaia vermelha... blusa decotada... sem sutiã, ulalá!

 

Exibem e oferecem aos olhos (ai, Senhor, só aos olhos) as graças mimos prendas – não é pedir demais ao seu miúdo e sofrido coração?

 

Ah, se ele pudesse... ah, se elas deixassem... Umas poucas palavrinhas (de três sílabas), porcas ou não, sopradas ao ouvido na hora certa. Delas arrancaria êxtases de lírios místicos! rosas despetaladas de

gritinhos e desmaios.

 

Em vez disso, o quê? A loira pistoleira. Gardenal. Iodo no uísque. Uma receita mortífera.

Achado pela manhã no quarto sórdido de pensão.

 

O pequeno príncipe bandalho na sua estrelinha de luz negra.

Celebrado por anjos caídos e putas viciosas, bandidas e cachorras.

 

Mortinho. Sem relógio de pulso. Sem cueca. Sem tênis.

 

No campo de batalha. Nu e despojado. Como deve ser o fim do herói.

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