Leia o conto 'Aleias Escuras', de Ivan Búnin

Primeiro escritor russo a ganhar o Nobel de Literatura, Ivan Búnin (1870-1953) tem seus contos reunidos e traduzidos por Márcia Pillegi Vinha em obra da Amarylis. Leia a seguir Aleias Escuras, um dos contos do volume:

O Estado de S. Paulo

31 de janeiro de 2014 | 20h25

"Durante uma fria intempérie de outono, em uma das grandes estradas de Tula, inundada pelas chuvas e retalhada por muitos carris pretos, uma caleça encostou junto a uma isbá, com a capota erguida pela metade, respingada de lama e puxada por uma troika de cavalos bastante simples, cujas caudas estavam amarradas devido ao barro. De um lado da habitação funcionava uma agência dos correios e, de outro, havia um cômodo onde era possível descansar ou pernoitar, almoçar ou pedir um samovar. Na boleia da caleça sentava-se um mujique alentado, metido num armiák bem amarrado, de aparência séria e de face escura, barba preta feito breu, semelhante a um bandido de antigamente; na caleça, ia um militar velho e garboso, de quepe grande e capote cinza ao estilo Nikolai, com gola alta forrada por pele de castor, cujas sobrancelhas, ainda pretas, não obstante os bigodes brancos, uniam-se até as suíças de mesmo tom, sobre o queixo barbeado. Toda sua aparência guardava muita semelhança com Alexandre II, cujo estilo era tão difundido entre os militares de sua época, e seu olhar também era interrogador, severo mas, ao mesmo tempo, cansado.

Quando os cavalos pararam, ele atirou para fora da caleça sua bota militar de cano duro e, segurando as abas do casaco com suas mãos de luvas de camurça, correu em direção à isbá e adentrou-a.

- À esquerda, sua excelência — gritou da boleia o cocheiro, grosseirão, e aquele, curvando-se levemente na soleira em razão de sua considerável estatura, adentrou no vestíbulo e depois no cômodo à sua esquerda.

Lá estava aquecido, seco e asseado: um ícone dourado, novo, ocupava o canto esquerdo e, debaixo dele, havia uma mesa coberta por uma toalha limpa de linho cru, ao redor da qual se dispunham bancos nitidamente lavados; um forno a lenha,1 que ocupava o canto direito oposto, branquejava à cal fresca; mais perto, havia um tipo de banqueta, coberta por pelegos malhados, que se estreitava contra o forno; por detrás da sua tampa, desprendia-se o cheiro doce de schi – repolho bem cozido, carne de vaca e louro.

O recém-chegado atirou seu capote sobre o banco, parecendo ainda mais garboso só de uniforme e botas, depois tirou as luvas e o quepe e, com aspecto cansado, passou a mão magra e pálida pela cabeça – os cabelos grisalhos das têmporas, penteados em direção aos olhos, encaracolavam-se levemente, e seu rosto belo e alongado com olhos escuros conservava, aqui e acolá, pequeninas marcas de varíola. Como não houvesse ninguém no cômodo ele, hostil, gritou pela porta entreaberta, que dava para a entrada:

- Ei, tem alguém aí?

Imediatamente após, entrou uma mulher de cabelos escuros, sobrancelhas também escuras e também bela, apesar da idade. Parecia uma cigana idosa, com sua penugem escura sobre os lábios e bochechas, tinha andar leve, embora fosse gorducha, os seios grandes sob uma blusinha vermelha e a barriga triangular, como a de uma gansa, debaixo de uma saia preta de lã.

- Bem-vindo, excelência — disse ela. - Quer comer ou deseja um samovar?

O recém-chegado deu uma rápida olhada nos ombros curvados dela e nos pés leves de sapatilhas tártaras, vermelhas e gastas, e falou entrecortado, desatento:

- Samovar. É a dona, aqui, ou está servindo?

- Sou a dona, excelência.

- Então, administra tudo sozinha?

- Exatamente. Sozinha.

- Como assim? É viúva ou o quê, para você mesma levar o negócio?

- Não sou viúva, não, excelência, mas tenho que viver de alguma coisa. E gosto de cuidar daqui.

- Claro, claro. Isso é bom. E como é limpo e agradável aqui.

O tempo todo, a mulher o perscrutava, franzindo os olhos suavemente.

- E também, eu gosto de limpeza — respondeu ela. - Já que eu cresci com os senhores, como é que eu não ia saber fazer as coisas direito, Nikolai Aliekséievitch?

Ele rapidamente se endireitou, arregalou os olhos e enrubesceu.

- Nadiéjda!2 É você? — disse ele, apressado.

- Eu mesma, Nikolai Aliekséievitch — respondeu ela.

- Meu Deus, meu Deus! — disse ele, sentando-se no banco e olhando-a fixamente. - Quem poderia pensar! Há quantos anos não nos víamos? Uns trinta e cinco?

- Trinta, Nikolai Aliekséievitch. Eu estou com quarenta e oito e o senhor, eu acho, deve ter uns sessenta.

- Perto disso... Mas meu Deus, que estranho!

- O que é estranho, meu senhor?

- Tudo, tudo... Mas como você não entende?!

O cansaço e o alheamento haviam desaparecido. Ele se levantou e começou a andar a passos firmes pelo cômodo, olhando o chão. Depois parou e, enrubescendo por entre os cabelos grisalhos, pôs-se a falar:

- Nada sei a seu respeito desde aqueles tempos. Como veio parar aqui? Por que não ficou com os senhores?

- Eles me deram liberdade logo depois do patrão.

- E onde foi morar depois?

- É uma longa história, meu senhor.

- Não foi casada, como diz?

- Não fui não, senhor.

- Por que, com aquela beleza?

- Eu não podia fazer isso.

- Por que não podia? O que quer dizer?

- Mas explicar o quê? Pois na certa o senhor se lembra como é que eu o amava.

Ele enrubesceu até as lágrimas e, carregando o cenho, novamente se pôs a andar.

- Tudo passa, minha cara — ele se pôs a balbuciar. - Amor, juventude... tudo, tudo. Isso é uma história comum, corriqueira. Com os anos tudo passa. Como está dito no Livro de Jó? “Apenas te lembrarás como das águas que passaram.”

- Cada um tem aquilo que Deus dá, Nikolai Aliekséievitch. A juventude passa mesmo, para tudo que é gente, ela passa; mas o amor – isso é outra coisa.

Ele levantou a cabeça e, parando, sorriu febrilmente:

- Pois você não poderia me amar a vida toda!

- Poderia sim. Quanto tempo já não passou e eu sempre vivendo só disso? Sabia que o Nikolai de antes já não existia mais, que pro senhor era como se nada tivesse acontecido, mas... Agora é tarde para culpar, mas verdade seja dita: o senhor me largou de um jeito muito desalmado demais; e quantas vezes eu não quis foi acabar com aquela minha vida por causa dessa desfeita, e isso já sem falar de tudo o resto... Porque teve um tempo, Nikolai Aliekséievitch, que o senhor era, para mim, Nikólenka,4 e eu era para o senhor – lembra como me chamava? E ficava sempre lendo tudo quanto era verso de umas “aleias escuras” – acrescentou ela, com um sorriso maldoso.

- Ah! Como você era bela! — disse ele, meneando a cabeça.

- Como era ardente, maravilhosa! Que talhe, que olhos! Lembra como todos ficavam fascinados diante de ti?

- Lembro, meu senhor. E o senhor também era dos bons. Pois então, foi pro senhor que eu dei toda a minha beleza, toda a minha febre. E como é que alguém esquece isso?

- Ah! Tudo passa. Tudo se esquece.

- Tudo passa mesmo, mas esquecer, nem tudo a gente esquece.

- Deixe-me — disse ele, virando as costas e aproximando-se da janela. - Deixe-me, por favor.

E, tirando um lenço e comprimindo-o contra os olhos, acrescentou, rápido:

- Só espero que Deus me perdoe. Por que tu, ao que parece, me perdoou.

- Não, Nikolai Aliekséievitch, não perdoei. Já que a conversa chegou até o nosso sentimento, eu digo de uma vez: nunca consegui perdoar o senhor. Se naquela época, eu não tinha ninguém mais especial no mundo do que o senhor, depois também foi assim. Por isso, não tem nem como perdoar. Mas, para que ficar lembrando? Não adianta acender vela para defunto ruim.

- É mesmo, não há como... Mande trazer os cavalos — respondeu ele, afastando-se da janela, com o rosto já severo. - Mas só uma coisa eu lhe digo: não pense, por favor, que já fui feliz na vida. Desculpe, pois eu não quero ferir seu amor-próprio, mas, sinceramente – amei perdidamente a minha esposa. Mas ela me trocou, me largou de uma maneira ainda mais ultrajante do que eu te larguei. Meu filho, eu adorava – enquanto ele crescia, quantas esperanças eu não depositei nele! Mas virou um canalha, gastador, um descarado, sem coração, sem honra, sem vergonha... Pensando bem, tudo isso é a história mais comum, corriqueira. Cuide-se, minha cara. Acho que eu também perdi em ti tudo o que eu tinha de mais especial na vida.

Ela se aproximou e beijou-lhe a mão. Ele beijou a dela.

- Mande trazer...

Quando seguiram viagem, ele pensou, sombrio: “Sim, como ela era graciosa! Um encanto de tão bela!”. Com vergonha, lembrou-se de suas últimas palavras e de que lhe beijara a mão e imediatamente se envergonhou de sua vergonha. “Não é mesmo verdade que ela me roporcionou os melhores momentos da vida?”

Ao entardecer, o sol voltou a aparecer, pálido. O cocheiro mantinha um trote curto, sempre evitando os carris pretos e escolhendo os menos lamacentos. Também pensava em algo.

Finalmente, disse com grosseria séria:

- Ela, sua excelência, ficou olhando o tempo todo da janela, enquanto a caleça saía. O senhor deve de conhecer essa dona faz tempo.

- Sim, faz tempo, Klim.

- Essa mulher é um poço de inteligente. E, pelo que dizem, fica cada vez mais rica. Até empresta dinheiro a juros.

- Isso não significa nada.

- Como não?! Quem é que não quer viver melhor neste mundo? Emprestar dinheiro não tem nada de mal. E ela, dizem, tem muita justeza no negócio. Com ela não tem conversa! Se não pagar de volta e dentro do prazo, a culpa é só sua.

- Pois é, a culpa é só sua... Aperte o passo, por favor, para não nos atrasarmos para o trem...

O sol baixo brilhava amarelo sobre os campos vazios, os cavalos pisavam sonoros, cadenciados pelas poças. Ele olhava as ferraduras que perpassavam sua vista, com o cenho negro carregado, pensando: “Sim, a culpa é só sua. Sim, claro, foram os melhores momentos. E não apenas os melhores, mas os verdadeiramente mágicos! ‘Ao redor, floreia escarlate a roseira-brava, as aleias de tílias escuras lá estão...Mas, meu Deus, o que teria sido depois? O que aconteceria se eu não a tivesse deixado? Que tolice! Essa mesma Nadiéjda, não a estalajadeira, mas a minha esposa, dona de minha casa em Petersburgo, mãe de meus filhos?”

E, fechando os olhos, meneou a cabeça. 

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