Leia o artigo 'Estás Ficando Grande', de Cecília Meireles

Confira na íntegra o artigo Estás Ficando Grande, do livro Episódio Humano, de Cecília Meireles.   Estás Ficando Grande   - Disseram-me isto: "Estás ficando grande."   Eu ia caminhando pela beira do riacho, seguindo a mesma onda vagarosa, que subia e descia as pedras. Não sei que foi que senti. Meus olhos ficaram olhando para o mesmo lugar. Mas perdi de vista o pedaço de água que ia acompanhando.   Então reparei na minha sombra, diante de mim, pelo chão. A sombra das árvores e das casas desenhavam na terra uma paisagem deformada e invertida. Por entre essas manchas de um mundo meio trágico, meu corpo rastejada longo e negro, procurando o horizonte. Fui andando assim. Fui andando. Fui pisando a imagem das árvores e das casa estendidas no chão. Fui pisando a sombra de outras criaturas, e fugindo além de mim, com passos desmesurados, chegando a outros lugares antes de eu mesmo chegar.   - Como estão compridas as sombras!   - Porque o sol já vai muito baixo.   Pareceu-me, porém, que não era por isso. Há momentos em que de tudo se exalam mistérios, intenções esparsas, vagos símbolos do nosso destino distanciando-se. "Estás ficando grande". Estive nalgum lugar, muito triste, longamente.   Minha vida boiava em torno com as suas cenas mais imprevistas, quebradas em pedaços sobre o esquecimento geral. E eram como lembranças alheias aparecendo não sei por quê, diante de mim. Para que as lembranças? Coleção das tentativas. Impressões de infelicidade que a nossa fraqueza foi deixando para atrás nas suas pegadas tímidas. E as lembranças nebulosas que não têm nada com esta vida, que se formavam dentro de nós antes de dizerem que existíamos, coisas confusas girando vagarosas entre a morte e a vida, como um fio quase desfeito de luz enovelando-se por si mesmo na entranha da noite compacta.   Que tênues motivos indeléveis se suspenderam a esse levíssimo fio! Quando disseram que tínhamos nascido, já trazíamos muitos séculos guardados em nosso silêncio. E continuamos com uma narrativa que ninguém entende, porque o princípio se perdeu.   Comecei a pensar, então, que eu podia descer ao fundo desses mundos sombrios, agarrado a mim mesmo, como uma corda. Curto seria o caminho, porque a vida estava começando. E o segredo das origens viria à tona com simplicidade, e todos os seus vestígios se desenhariam com exatidão. De repente, repetiu-se a mesma voz, dura e fria: "Estás ficando grande".     Não se podia ficar mais tempo assim detido a investigar o prólogo das informações. Não era permitido estacionar conversando com os antecedentes da vida. Vinha a advertência aguilhoar-nos as forças, que tinham adormecido, para que os sonhos se desenvolvessem.   Então, como era preciso ir para a frente, quebrava-se a pensativa atitude, e deixava-se de novo o destino incorporar-se em nós, ajustar-se aos limites do corpo, como a bainha sobre as lâminas. Fui para a frente assim conformado. E atravessava a noite. E a noite e eu nos confundíamos, como substâncias da mesma espécie. E a cada instante eu me dizia: "Não, até aqui é o meu corpo. Daqui para diante é o ar, é a noite é o caminho..."   No fim do caminho, estava a porta. Um dia, todas as coisas que sempre vimos com indiferença fazem a sua revelação. Transmitem-nos o seu nome profundo. E sentimos que estivemos sempre diante do infinito, sem o compreendermos.     No fim de um caminho uma porta.   Empurrando-a, minha mão vacilou. Meu passo esvaiu-se no silêncio do tempo, como um relâmpago recolhendo-se. Minha pátria, minha casa, minha gente, estavam lá fora. Eram o chão sereno, pisado, cavado, semeado, construído, e as águas que fluíam sem perguntar para onde, e os animais que passavam calados, como desfiguradas assombrações humanas, e as estrelas sozinhas, acima das coisas, e as árvores, prisioneiras do chão, contemplando apenas a passagem da vida, e dizendo que sim, que sim, a qualquer vento. Nada vale pelo que é, mas pelas construções de mistérios que sobre elas podemos erigir.   Minhas árvores vindo de dentro da terra, como braços do dono do mundo! Minhas estrelas esperando do alto o acabamento de tudo! Meu mar, indo e vindo, juntando as ondas à pressa, para as esmagar em espumas nas paredes das praias, sem nunca se poder destruir, sem nunca poder esgotar. E a casa marcava os limites da vida! E a casa me dizia: "Tu és aquele que nasceu aqui, e teu nome é esse por que te chamam, simplesmente. Tens de ser como os que viveram antes de ti. Trabalhar, sofrer, e morrer. Serás bom, para morrer em paz. Depois virão outros!" E eu olhava para a casa, e achava a pequena, baixa, pesando sobre o meu corpo, não me deixando nem espaço para agitar o peito respirando. E estava escuro, mas de um escuridão diversa da noite, porque terminava ali dentro, sob as pedras, que eu sentia, como meus ossos.   - Não, casa, eu não quero ficar aqui. Eu não posso ficar preso dentro de tuas paredes. Eu vou até muito longe, como os rios, até muito alto, como as palmeiras. Quando eu abrir os braços, desabarás. No entanto, a casa era muito maior do que eu. (Mas eu estava escutando dizerem: "Estás ficando grande.")   E uma luz acendeu-se num canto. E minha sombra derramou-se no chão. E as minhas medidas cresceram, negras e silenciosas como vestidos longos de luto. E meu rosto sem feições apareceu defronte, grande como uma rocha saindo do mar. Abri os braços e meu gesto se dobrou nos ângulos da sala, aflitivo, partido nas dimensões que o prendiam. Levantei-me assustado comigo. Movi as mãos, experimentando-as. E na parede as outras mãos se moveram, grandes, negras, assombradoras. E eu pensava: "Como sentirão aquelas mãos, que também são minhas. Tocarão, palparão? Não podem deixar de ter uma sensibilidade. Não podem deixar de recolher o vestígio de alguma lembrança, deslizando pelos objetos, ainda que leves e fugitivas."   Têm-se vertigens assim, no meio da noite deserta, quando nenhuma outra criatura humana passa diante de nós. Quando estamos sozinhos conosco, perdemos o sentido de ser humanos. E estranhamos tudo. E não sabemos mais o que se chama vida e morte. E não percebemos que ponto do espaço ocupamos, se o ocupamos até quando o ocupamos.   Mas as minhas mãos, ao longe, pairavam como num elemento diverso do ar. E eram também diversas de mim, de matéria mais leve, pois tocavam sem rumor todas as formas jazentes, e podiam agitar-se mansas ou bruscas sem deixarem depois de si o rastro de nenhuma doçura ou inquietação.   "Estás ficando grande". Pareceu-me que já estava grande, que era de uma raça de gigantes, porque a minha cabeça empurrava o teto com violência: que era do tamanho das árvores maiores, e cresceria sempre, cada vez mais, através do tempo sem terminação.   E quis ver até onde ia.   Mas a cabeça passou-se-me pela janela aberta, e perdeu-se lá fora, sobre o céu. E não a sentia. E não compreendia como não a podia sentir. E era triste não saber onde estava. E tinha certeza de dever estar nalgum lugar. Mas onde? Onde é que se está e que se pode sentir quando se projeta para longe o nosso tamanho transfigurado?

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.