Arquivo/Agência O Globo
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Leia fragmentos de textos de Clarice Lispector

Confira trechos de 'As Palavras', uma criteriosa seleção de frases pinçadas pelo pesquisador Roberto Corrêa dos Santos nas principais obras da escritora

O Estado de S. Paulo

09 de dezembro de 2013 | 19h30

"'Eu te amo' era uma farpa que não se podia tirar com uma pinça. Farpa incrustada na parte mais grossa da sola do pé."

"Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável."

"Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer."

"Desde que descobrira - mas descobrira realmente com um tom espantado - que ia morrer um dia, então não teve mais medo da vida, e, por causa da morte, dinha direitos totais: arriscava tudo."

"Milhares de pessoas não têm coragem de pelo menos prolongar-se um pouco mais nessa coisa desconhecida que é sentir-se feliz."

"Eu está apaixonada pelo teu eu. Então nós é."

"Estou melancólica porque estou feliz. Não é paradoxo. Depois do ato do amor não dá uma certa melancolia? A da plenitude."

"Para que te servem essas mãos que ardem e prendem? Para ficarmos de mãos dadas, pois preciso tanto, tanto, tanto - uivaram os lobos, e olharam intimidados as próprias garras antes de se aconchegarem um no outro para amar e dormir."

"Eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando duas compreensões, eu amava. Não sabia que, somando suas incompreensões, é que se ama."

"Não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma. Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso - nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro."

"Não faz mal que venha uma pessoa triste porque a alegria que se dá é tão grande que se tem que a repartir antes que se transforme em drama."

"Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não palavra - a entrelinha - morde a isca, alguma coisa se escreveu. Uma vez que se pescou a entrelinha, poder-se-ia com alívio jogar a palavra fora. Mas aí cessa a analogia: a não palavra, ao morder a isca, incorporou-a. O que salva então é escrever distraidamente."

"Tenho um problema: é o seguinte: quanto tempo duram as coisas? Se eu deixar uma folha de papel num quarto fechado ela atinge a eternidade?"

"Mas o meu principal está sempre escondido. Sou implícita. E quando vou me explicitar perco a úmida intimidade."

 

 

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