Leia depoimento de Ignácio de Loyola Brandão e trecho de Sidarta

[DEPOIMENTO]

O Estado de S. Paulo,

10 de agosto de 2012 | 17h43

"Eu tinha 15 anos quando um tio, que era considerado avançado na familia, me deu O Lobo da Estepe para ler. Fiquei siderado. Era um livro diferente de tudo, principalmente pelo caderno central, em cor diferente. Achei tudo maluco (eram anos 50, no interior), mas ele me disse que o autor estava à frente de seu tempo. Já em São Paulo, adulto, fui daqueles que releram O Lobo da Estepe com outros olhos, e que se encaixaram na fileira dos hippies com Demian e Sidarta. Quantos casais amigos não batizaram seus filhos como Demian? Nossa, como se lia Sidarta! Como se indicava! Como se comentava em mesa de bar! Não ler Herman Hesse era estar por fora. Quando a Brasiliense editou O Jogo das Contas de Vidro, um grosso volume (em geral, eram curtos os livros de Hesse), foi outro delírio. Tudo o que ele nos dizia vinha misturado aos Beatles, que tinham seus gurus indianos. Foi um tempo de amor e flores, de utopias, de faça amor não faça guerra. Até me deu vontade de reler tudo."

Ignácio de Loyola Brandão, escritor e cronista do Caderno 2

 

[TRECHO]

"À sombra da casa, ao sol da ribeira, perto dos barcos, na penumbra do salgueiral, ao pé da figueira, criou-se Sidarta, belo filho de brâmane. O sol tostava-lhe as claras espáduas, à beira do rio, durante o banho, por ocasião das abluções sagradas e dos sacrifícios rituais. A sombra se insinuava nos olhos negros, quando ele estava no mangueiral, entretendo-se com jogos infantis, ouvindo o canto da mãe, presenciando os sacrifícios rituais, escutando os ensinamentos do pai, o erudito, ou assistindo aos colóquios dos sábios. Junto com Govinda, já realizava torneios de eloquência; junto com Govinda, já se exercitava na arte de contemplar e nos serviços de meditação. (...) Já era capaz de perceber no íntimo de sua natureza a presença do Átman, indestrutível, uno com o Universo.

O coração do pai vibrava de alegria pelo filho dócil, ávido de saber. Pressentia nele um sábio, um sacerdote, um príncipe entre os brâmanes.

O peito da mãe enchia-se de felicidade sempre que o olhava, observando-lhe o modo de caminhar, de sentar-se, de erguer-se, o modo de Sidarta, o belo, o forte, que lá passeava com suas pernas delgadas e a saudava com perfeito recato.

Nas almas das jovens filhas de brâmanes nascia o amor, cada vez que Sidarta andava pelas ruas da cidade, com a testa luzente, os olhos de um rei, a cintura esbelta."

(Hermann Hesse, Sidarta; BestBolso, tradução de Herbert Caro)

 

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