Leia crítica do livro 'Pássaros na Boca', de Samanta Schweblin

Crítica do livro Pássaros na Boca, de Samanta Schweblin, publicado pela editora Benvirá, com tradução de Joca Reiners Terron

30 de março de 2012 | 22h34

NA TRADIÇÃO DOS GRANDES MESTRES

Wilson Alves-Bezerra

 O conto fantástico teve grandes praticantes na região do Rio da Prata ao longo do século 20: Quiroga, Felisberto Hernández, Cortázar e Borges executaram com maestria o desafio de trazer o insólito à vida cotidiana. A jovem contista Samanta Schweblin (1978) inscreve-se nessa tradição. O que significa dizer que a escritora se compraz em narrar e sugerir, mas não em descrever ou explicar o aparecimento do inexplicável.

É em meio ao cotidiano que se desenvolvem as narrativas do livro. Irman, o conto de abertura - que dialoga com The Killers, de Hemingway - traz os desdobramentos inesperados de uma parada num restaurante de beira de estrada: o garçom, baixinho, não pode servir a mesa porque não alcança a geladeira, isso é função da esposa; mas ela jaz morta na cozinha e, como o cliente é alto, o garçom propõe contratá-lo ao invés de servi-lo. Sucedem-se um roubo e uma fuga. Desencadeamentos  de fatos assim são frequentes no livro; os relatos não são alegoria ou metáfora de coisa alguma, e por isso desconcertam.

Em Na Estepe, dois jovens vão em busca da fertilidade, e para tanto fazem uma série de exercícios e rituais; na estepe, encontram outro casal na mesma condição, que teria obtido êxito. Vão à casa dos supostos felizardos. Palavras como "filho", "bebê, "gravidez" não aparecem uma só vez no conto; o suposto engendro tampouco é mostrado, sugerindo uma dimensão monstruosa, com as medidas da fantasia grotesca do leitor.

Schweblin toma como matéria narrativa as forças perturbadoras que atuam sobre as pessoas, e que hoje chamaríamos psíquicas. O romance gótico e a literatura fantástica do século 19 lançavam mão de monstros para desempenhar essa função. Autores como Cortázar, no século 20, tiveram o mérito de mostrar o medo primário, sem o recurso da casa mal-assombrada. Ainda que a autora opte por paisagens ermas, como as estradas dos pampas argentinos, tais cenários são acessórios na obtenção do efeito. O que vale é a narração contida, ponteada de silêncios.

Temas como a gravidez, a filha adolescente que come passarinhos, a noiva abandonada na beira da estrada, compõem o repertório do livro e sugerem um desdobramento interessante na tradição do conto fantástico: nas narrativas de Pássaros na Boca há sempre uma mulher que espreita.

Anota negativa fica por conta da tradução, a cargo de Joca Reiners Terron, que falha ao reconstruir a fluência e a coloquialidade do original em português. O narrador parece se render a uma suposta transparência inexistente entre as línguas: um personagem do conto Irman 'sacou um menu' (p. 6), enquanto o outro, suado, 'tinha manchas e auréolas na camisa' (p. 7). Em certa frase, o termo pata se referia ao pé do banco, e piernas ao corpo da personagem; na tradução, tudo se misturou, criando um contorcionismo improvável: "Procurou apoiar o banco sobre uma das pernas, um dos pés tocando o joelho" (p. 13) [Probó apoyar el banco sobre una de las piernas, una de las patas tocando la rodilla]. No mesmo conto, há um jogo entre Me da impresión (no sentido de "me perturba") e Me da la impresión ("tenho a impressão", "acho"), que se refere ao baixinho diante da esposa talvez morta; o diálogo em torno às duas frases ocupa quase meia página, e perde todo o sentido na tradução: "- Disse "tenho a impressão" - disse Oliver -, e não que "é só impressão" (p.11) [-Dijo que "le da impresión" -dijo Oliver-, no que "le da la impresión"].

Wilson Alves-Bezerra é tradutor, autor de Reverberações da Fronteira em Horacio Quiroga (Humanitas/FAPESP) e professor do Departamento de Letras da UFSCar

Trecho do conto Perdendo a Velocidade

Tego preparou ovos mexidos, mas, quando finalmente se sentou à mesa e olhou para o prato, percebeu que era incapaz de comê-los.

         - O que houve? - perguntei.

         Demorou para tirar os olhos dos ovos.

         - Estou preocupado - disse. - Acho que estou perdendo velocidade.

         Moveu o braço de um lado para outro, de uma forma lenta e exasperante, suponho que de propósito, e ficou me olhando como se esperasse o meu veredicto.

         - Não tenho a menor ideia do que você está falando - respondi. - Ainda estou meio dormindo.

         - Não viu como demorei para atender o telefone? Para ir até a porta, para tomar um copo d'água, para escovar os dentes... É um martírio.

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