Leia artigo sobre Charles Dickens no 'Suplemento Literário'

Artigos do 'Times Saturday Review' e 'The Spectator' na seção Revista das Revistas de 7.3.1970

18 de junho de 2010 | 19h36

SÃO PAULO - Este ano do centenario da morte de Charles Dickens é ocasião de ser discutida a grande figura. Ainda no Natal passado foram publicados mais um volume da correspondencia do romancista e, em edição de dois tomos, ineditos de Dickens ("Household Words, 1850-59"). Sôbre as cartas agora publicadas (1840-1841), o sr. Richard Holmes em The Times Saturday Review (29 novembro) escreve um vivo comentario. Ao gosto da crítica mais moderna será Dickens um maniqueista que se realiza na variedade, ou um secreto simbolista, ou ainda um existencialista aborrecido? Ainda há os que pensam freudianamente que o sexo em Dickens está em tudo, apenas disfarçado em necessidade de comer. Refere-se o sr. Holmes ao "Dickens" de George Wing, de publicação recente como repositorio e critica de todas essas opiniões. E pondera que os criticos como todos os idolatras tendem a refazer os velhos deuses à imagem e semelhança da nova sociedade. O que não deixa de ser uma observação válida de crítico.

 

Mas, ainda assim, o que conclui o sr. Holmes da leitura da correspondencia de Dickens é mesmo que se trata de um esquizofrenico. O sr. Holmes cita uma carta do escritor a um velho amigo, contando que naquela mesma manhã, teve uma crise de choro e a presença da mulher só piorava a situação. E textualmente: "Desprezo os meus país. Detesto a minha casa". Vai mais longe, no seu delírio de autodestruição, confessando ao amigo pensamentos que vão de atirar-se num canal vizinho ou às patas dos cavalos dos carros que pensam ou, à botica que fornece veneno. Será a verificação do diagnóstico, essa carta a John Forster? Infelizmente não, escreve o sr. Holmes com humor macabro, pois nessa mesma carta confessa Dickens uma paixão incoercivel pela Rainha Victoria, o que se poderia hoje ter como sinal de loucura. Mas os editores da correspondencia de Dickens, depois de ter ocultado cuidadosamente durante muitos anos a carta delirante, publicaram-na visto que descobriram haver o grande homem dirigido cartas semelhantes a outros dois amigos. Dickens brincava apenas, concluiram os entendidos em Dickens.

 

O sr. Holmes, no entanto, não se desarma por tão pouco e descobre outros sinais alarmantes: caprichos que raiam ao absurdo e ao mesmo tempo, um insaciavel bom humor, grande sentimentalismo, feroz profissionalismo na colheita de material novelesco, absoluta falta de convencimento pessoal mesmo quando foi aclamado aos 29 anos como um novo Shakespeare. Mas, como tudo isso, Dickens estava longe de ser um introvertido, como se êle nunca se tivesse posto ao espelho, exceto, pretende ao ser. Holmes, para testar a sua habilidade de mimo.

 

A tendencia à extroversão no paciente Dickens é mais social e literariamente explicada pelo sr. John Holloway em artigo do Spectator de 29 de novembro, sobre os livros de Natal, entre os quais "The Uncollected Writings of C.D." Dickens participa estritamente falando, do frenesi de produtividade característico do seu tempo. O critico explica que os Victorianos estavam obsecados com a coisa, o objeto: era a sua idiosincrasia. O ambiente, eles o provoavam, individualizavam-no mediante os objetos: variados, dotados de colorido particular, encrustados em protuberancia nos moveis da época, assumida tal fetichismo quase feição de religião. Mas não era ainda o puro objeto dos modernos e sim uma forma cristalizada de trabalho, uma manifestação de energia: objeto e atividade eram complementares de um todo.

 

A esse respeito, são características as atividades de Dickens como jornalista, que o foi, nas suas aventuras: "Household Words" e "All The Year Round". Muita coisa era escrita por seus colaboradores (já naquele tempo era tal o uso), mas Dickens infatigavelmente alongava, encurtava, assumia-lhes a responsabilidade, e as vezes reescrevia o texto proposto. Enfim era um verdadeiro editor.

 

Voltando ao comentário do sr. Holmes verifica-se que Dickens foi um grande jornalista. Em 1850, no auge da sua carreira literária, dirigiu o seu segundo semanário que foi "Household Words", o qual circulou durante nove anos e revelou 350 escritores de Mrs. Gaskell a Michael Faraday, atingindo a uma circulação de 40.000 exemplares aproximadamente. Sem falar nos seus proprios romances que, à moda do tempo, eram produzidos e publicados em série, tal como hoje os felizes autores de novelas da T.V.

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