Leia artigo de Torres Fierro sobre 'Por Las Sendas de la Memoria'

El Peregrino en Su Patria foi o título de uma das séries que, em 1986, e no Fondo de Cultura Económica, reuniu os poemas, os ensaios, as notas e os comentários nos quais o México aparece na obra de Octavio Paz. A escolha deste título não foi inocente. Por outro lado, é preciso lembrar que peregrino deriva de "peregrinus", que em latim significa estrangeiro e designa aquele que percorre terras estranhas, e, por outro, é preciso advertir que uma segunda acepção do termo remete a uma pessoa que, movida pela devoção, empreende uma viagem para visitar algum santuário ou lugar sagrado. Portanto, neste título, nas implicações semânticas e metafóricas que ele comporta, e na deliberada superposição de umas e outras, discernimos, representada e encarnada, a relação que a figura de Paz teve com o seu país e a deste com ele. De fato, e pelo menos desde meados da década de 40, quando começa a gestar El Laberinto de la Soledad (1950), durante e depois de algumas viagens (à Espanha e aos Estados Unidos) que o afastam de seu lugar de origem, o México era para o escritor uma "ideia fixa". Uma mania, uma obsessão, uma inquietação recorrente na qual convergem sonhos e pesadelos, ilusões e decepções, encantamentos e distanciamentos; e também tradições veneradas de uma história nacional que respeitamos ou renegamos, e rupturas emocionais e psicológicas que buscam uma reconciliação que aparece como conflituosa, escorregadia. E, em contraposição, Paz era, para o México uma presença irritante e polêmica, querida e malquista ao mesmo tempo, respeitada por tratar-se de uma consciência lúcida de enraizamento nacional e por sua irradiação exterior, e rechaçada com resistência, diríamos, quase física por seu afã desmistificador e - consequência inevitável - sua demolição de lugares comuns e tabus. Sim, e de uma e de outra parte, cumpre-se a dicotomia clássica: Odio et Amo.Em nenhuma de suas alternativas este vínculo foi normal, ordinário, o vínculo entre um mero cidadão e seu país. Não era um vínculo normal para o poeta e o pensador que, amparado pelo afã do conhecimento, insistia em nadar contracorrente e em raspar as pátinas e as máscaras que, aqui e acolá, e como uma pegajosa argamassa, ocultavam as verdades e tapavam as identidades.Tampouco era um vínculo normal para uma nação que articulou em torno de suas mitologias passadas e presentes um panteão edificante, fez do seu "gênio" um motivo de orgulho mais ou menos persistente, e de seu trânsito histórico um continuum que não foi quebrado substancialmente nem pelos sucessos nem pelos fracassos nem pelas alegrias nem pelas tristezas de seu decurso. Estabelecia-se assim, entre uma e outra parte, uma relação embaraçosa, incômoda, perturbadora. Neste sentido, em uma entrevista publicada em 1989, Paz reconhecia que fora "um escritor incômodo para boa parte da classe intelectual mexicana". E acrescentava que, "a verdade é que, ser incômodo, confesso, não me desagrada. Um escritor deve sê-lo sempre, principalmente diante de si mesmo e de sua obra. Quase todas as obras importantes foram feitas para e inclusive contra a maioria dos gostos, contra a moral e as opiniões do público". UMA VIDA NO SÉCULOEsta sensação de incômodo radical (palavra cujo emprego remete ao sentido que Eliot deu a "unpleasant" em seu famoso texto sobre Blake) por parte do criador perante si mesmo e perante os outros começou muito cedo, como Paz confessa em Itinerario, livro que o Fondo de Cultura Económica acaba de incorporar ao recente Por las Sendas de la Memoria. O livro tem - e não podemos perder de vista este dado ao longo de uma leitura - algumas características singulares; dividido em duas partes (La Espiral, Explicaciones, reúne textos mais ou menos extensos ("Como e Por Que Escrevi El Laberinto de la Soledad e o próprio Itinerario) que foram escritos como prólogos dos tomos VIII e IX das Obras Completas e três entrevistas que servem de glosa ou comentário ao que escrevera anteriormente. Tanto a voz confidencial, o tom autobiográfico e o ritmo de biografia intelectual e "sentimental e também passional" de abundantes trechos dos textos, quanto a exposição pormenorizada do desenvolvimento das ideias sobretudo políticas que acrescenta de maneira vigorosa ao conjunto, encontram sua origem no fato de que Paz, um homem que costumava agir em reação aos estímulos externos, contestou a pertinência de um relato de sua vida e obra ao preparar suas obras completas e ao aproximar-se dos seus 80 anos. Ele desejou realizar uma reflexão e uma relação deste duplo arco pessoal e criador no qual aparecem seu vínculo consigo mesmo como pessoa humana e como persona dramática, com sua pátria em particular, com o mundo em geral e com as convicções, tanto próprias quanto alheias.Ocorre que este arco de história se funde e se confunde com o do século 20, e que, nesta comunidade, o périplo (a viagem de circunavegação) transcreve uma cartografia mais vasta na qual cabem a história intelectual de um homem, a história intelectual de um país e a história intelectual de uma boa parcela do mundo contemporâneo. E, evidentemente, a história intelectual converte-se, como costuma acontecer em Paz, na história moral, na história que evoca e convoca um sentido da conduta própria e coletiva como parte de uma elaboração ética e, de maneira não menos gravitante, em história poética, em história que é consequência e resultado de uma articulação estética. Assim, e apesar das suas aparências marcadamente circunstanciais e da relativa brevidade dos textos que o organizam, Itinerário é um trabalho complexo no qual a ânsia de dizer- de expressar, de nomear - alcança dimensões açambarcadoras. Nesta ordem de coisas cabe esclarecer que, embora se encontrem novamente temas, pareceres e desvelos constantes na trajetória do autor, sua reunião aqui foi incorporada a uma urdidura que pretende tecê-los numa única trama solidária, em uma única textura concorrente. Este anelo por unir as fontes de uma constância é compreensível. Testemunhos de uma honestidade peculiar, contra a qual muitas conjunturas adversas parecem conspirar em consideráveis trechos do sua evolução, estes textos são encarnações não de problemas, mas de experiências. De experiências que pertencem a alguém que entende a escritura como transmutação poética, sim, mas também como o alto testemunho de vida vivida, como o território no qual colidem, confluem e se correspondem, em ecos abertos, plurais, as manifestações da cultura e as da realidade. Não será demais acrescentar que tal concepção dialética, antagônica, desanestesia igualmente o homem e o escritor - e o eventual leitor -, mobiliza-os e multiplica as interrogações e os pontos de vista. O que surge de um processo tão premido pela comoção encontra um dos seus nomes no que mais acima foi chamado de incomodidade.AS MARCAS DA INFÂNCIAItinerário abre com a explicação do que podemos chamar de o seu nu dramático. Ali se encontram duas revelações que são determinantes do que virá depois. Por um lado, e destacada por sua disposição interna no relato, que a situa em seus passos inaugurais, está a descrição de uma cena da infância na qual o menino descobre seu desamparo no mundo e o sentimento de estranhamento que, a partir de certo momento, acompanha todo homem em sua existência. Vale a pena transcrever:-- Rumor de risos, vozes, tinir de louças, é dia de festa e comemoram um santo ou um aniversário. Meus primos e primas, maiores, pulam no terraço. Há um ir e vir de gente que passa ao lado do vulto sem se deter. O vulto chora. Desde séculos chora e ninguém o ouve. É o único que chora seu pranto. Extraviou-se num mundo que é, ao mesmo tempo, familiar e remoto, íntimo e indiferente. Não é um mundo hostil: é um mundo estranho, embora familiar e cotidiano, como as guirlandas da parede impassível, como as risadas da sala de jantar. Instante interminável: ouvir a si mesmo chorar em meio à surdez universal... Não lembro mais. Sem dúvida minha mãe me acalmou: a mulher é a porta de reconciliação com o mundo. Mas a sensação não se apagou nem se apagará. Não é uma ferida, é um oco. Quando penso em mim, toco nele; ao apalpar-me, o apalpo. Alheio sempre e sempre presente, nunca me deixa, presença sem corpo, mudo, invisível, perpétua testemunha de minha vida. Não fala comigo, mas eu, às vezes, ouço o que seu silêncio me diz: esta tarde começaste a ser tu mesmo; ao descobrir-me, descobriste tua ausência, teu oco: te descobriste. Já sabes, és carência, busca.Por outro lado, a poucas páginas de distância da confidência - pessoal, ecumênica - anterior, situa-se a narração de dois episódios nos quais o menino assiste, um pouco mais tarde, ao descobrimento do seu duplo estranhamento. Primeiramente, na escola anglo-americana de Los Angeles, aonde foi levado pelo exílio do pai por causa da guerra civil provocada pela revolução, e onde é agredido por seus colegas de classe por sua condição de mexicano; e depois, já em seu próprio país, e no colégio francês em que estuda, ao ser marginalizado por seus compatriotas que o julgam "gringo, francês ou gachupín" (espanhol radicado no México) ou talvez pelo "cabelo castanho, a pele e os olhos claros". Tais episódios infantis são epifanias, mais no sentido de Yeats (uma fantasmagoria que colore) do que no sentido de Joyce (um repentino vislumbre): lançam luz sobre uma situação determinada e se fixam como cacofonias que retumbam na memória de quem os protagonizou. Não é necessário recorrer às chaves em que a vulgata psicanalítica se baseia para calibrar os vestígios traumáticos destas experiências. O próprio Paz, ao escolhê-las, as atualiza como referências significativas de sua conformação psicológica e privilegia sua reverberação tanto em seu passado quanto em seu presente. Ocorre, entretanto, que nestas experiências - e isto merece ser ressaltado com intenção deliberada - se concentra não apenas o vínculo ambíguo e encrespado do autor com sua própria individualidade e com seu país, mas a curva íntegra sobre a qual (se) construirá sua vida. Explicarei: ali aparecem também, com o fim brusco da inocência, e de maneira germinal e oculta nas circunstâncias práticas dos episódios, os que serão os afãs e as obsessões de uma existência: a relação com os outros, a relação com o mal, a relação com a revolução - em sua tríplice condição de fenômeno nacional, internacional e ideológico -, a relação, embora se trate de uma comprovação feita a posteriori por nós com os dados que aproxima uma trajetória, entre a intuição e a apreensão poéticas do "estro" criador, e a que acompanha, em suas diferentes etapas e manifestações, a lucidez especulativa.O POETA, O INTELECTUAL, O HOMEM"Infância é destino". "A criança é o pai do homem". "Em meu princípio está o meu fim". As sentenças prestigiosas poderiam multiplicar-se e, com elas, os determinismos simplistas e abusivos. Daí que, neste sentido, seja mais eloquente, e mais exato, o título de uma das seções de Itinerário: "A espiral", esta curva que vai se abrindo e afastando de seu ponto de partida, e que dá várias voltas ao redor dele ... Ali, na evolução desta figura ondulante, se cifra a trama dramática do livro. E esta trama (os acontecimentos principais ou os enredos de uma obra dramática, mas também o conjunto de fios que, cruzados e entrecruzados com os da urdidura, formam uma tela) é construída ao mesmo tempo por um relato de natureza semi autobiográfica ou, para maior exatidão, meio autobiográfico - na medida em que nele atuam de certo modo um impulso confessional e seu freio restritivo -, relato no qual são dadas pistas e sinais para compreender as origens de determinadas atitudes, no qual é apresentada em grandes rasgos uma história intelectual e no qual se efetua um inventário das questões e dos incidentes de caráter ideológico e político que explicam e ilustram tal história. Ali, às vezes, é a voz humana que se impõe e predomina, às vezes, a do intelectual que interpela e raciocina, às vezes, a do poeta que intui e associa. Quase sempre é a voz, enérgica e vigorosa, de um homem que interroga e se interroga."Não escrevo um livro de memórias. A intenção destas páginas é traçar, rapidamente, os pontos principais de um itinerário político", adverte Paz em algum momento. Procuremos ater-nos a estas palavras. A segunda seção do livro esboça, em páginas nas quais confluem o anedotário pessoal e a reflexão crítica, os avatares de ordem ideológica e política nos quais Paz foi se transfigurando e, com ele, o século no qual lhe coube viver. Trata-se de uma recapitulação que vai evoluindo (a figura da espiral, mais uma vez) ao redor da ideia da revolução entendida como "teoria da mudança, ato que a realiza e construção da morada do futuro". Uma revolução que, filha bastarda da religião e da ciência, foi "uma paixão generosa e um fanatismo criminoso, uma iluminação e uma escuridão". "Minha geração" - ele precisa - "foi a primeira que, no México, viveu como própria a história do mundo, especialmente a do movimento comunista internacional".Cabe recordar que Paz tem 15 anos em 1929, quando é fundado o Partido Nacional Revolucionário, que, com o nome de Partido Revolucionário Institucional, acabaria com o tempo petrificando a revolução em seu país, e quando o intelectual José Vasconcelos dirige um fracassado movimento de oposição democrática. Sigamos alguns dos seus passos: Paz adotou, nos anos 30, os princípios da Revolução de Outubro, viajou para a Espanha a fim de aderir aos ideais socialistas e republicanos, atravessou o período esquerdista do presidente Lázaro Cárdenas... Suas atitudes políticas, tão determinadas pelo "espírito da época" e por estes divisores de água históricos nacionais e estrangeiros, passaram da aceitação submissa dos ditames do partido à desconfiança das ortodoxias e a uma crescente contraposição entre suas ideias políticas juvenis e suas convicções estéticas iniciais. Em sua permanência na Espanha da Guerra Civil (1937), por exemplo, descobriu que "a revolução era filha da crítica e que a carência de crítica a matara". Esta comprovação (que ali surge sob a forma de uma dúvida apenas esboçada), a que chegara tão cedo naquela época e em meio a um clima de certezas ideológicas unânimes, leva-o primeiramente a indagar sobre a suposta moralidade dos métodos empregados para defender a causa revolucionária e, mais tarde, a apelar para o exercício da crítica como "nosso norte moral".A VEREDA DOS SOLITÁRIOSAli começa, de fato, nesta história agora algo remota, a "vereda dos solitários" de Paz, uma vereda efetivamente compartilhada por poucos escritores e intelectuais que, como ele, se negam em seu trajeto a uma destas tão frequentes "conversões" de índole religiosa que os torna beatos ideológicos e cúmplices das mesquinhezas cometidas em nome de uma ideologia. O receio progressivo dos comissários políticos em relação aos seus pareceres pouco ortodoxos, a assinatura do pacto germano-soviético em 1939, o conhecimento da obra de Leon Trotski e seu assassinato no México, as desavenças com figuras intelectuais e políticas poderosas de seu país, o vínculo literário ou pessoal com uma oposição de esquerda (George Orwell, Victor Serge, Paul Rivet), a amizade com homens como Albert Camus e Kostas Papaiounnou, a "moral da honra" apregoada por André Breton, a revelação do mundo dos campos de concentração soviéticos em L’Univers Concentracionnaire, de David Rousset, as agitações e revoltas do Terceiro Mundo, o Maio de 1968, a decepção cubana, as alternativas (como a cortina de ferro) propostas pela vigência da Guerra Fria, e, last but not the least, a paralisia e a degenerescência da revolução mexicana são, grosso modo, outros tantos momentos ou episódios que servem de marcos numa trajetória de "espectador comprometido". Não se trata apenas do fato de denunciarem as fraquezas estratégicas de uma causa, as contradições de um ideal do político, as claudicações morais dos intelectuais ou as abjeções do totalitarismo. Não. Sua inteligência o leva mais longe, a enfrentar esta espécie de perversão que foi comum desde o começo do século e que logo se tornaria cada vez mais central: o potencial negativo do ser humano, este subsolo de raízes corruptas e malignas que conforma o avesso das bondades e dos sentimentalismos. É então que são formuladas algumas perguntas que põem de verdade o dedo na chaga: O que são os outros? Qual é a natureza do homem? O que é o mal? Ele escreve a certa altura que-- Nosso século - e, com o nosso, todos os séculos: nossa história inteira - nos colocou diante de uma questão da qual a razão moderna, desde o século XVIII, tratou inutilmente de se esquivar. Esta questão é central e essencial: a presença do mal entre os homens. Uma presença ubíqua, contínua desde o princípio e que não depende de circunstâncias externas, mas da intimidade humana. Excetuando-se as religiões, quem disse algo que valha a pena sobre o mal? O que nos disseram as filosofias e as ciências? Para Platão e seus discípulos - também para Santo Agostinho - o mal é o Nada, o contrário do Ser. Mas o planeta está cheio até as bordas de obras e dos atos do Nada! Os demônios de Milton construíram em um abrir e fechar de olhos os maravilhosos edifícios do Pandemônio. O Nada é criador? A negação é fazedora? A crítica, que limpa a mente de teias de aranha e que é o guia da vida reta, não é a filha da negação? É difícil responder a estas perguntas. Não é difícil dizer que a sombra do mal mancha e anula todas as edificações utópicas. O mal não é unicamente uma noção metafísica ou religiosa: é uma realidade sensível, biológica, psicológica e histórica. O mal se toca, o mal dói.

DANUBIO TORRES FIERRO,

07 de dezembro de 2012 | 19h57

Qualquer homem, ao propor-se uma tarefa como a que se cumpre em Itinerário, uma tarefa que penetra a própria interioridade e o próprio destino e ao mesmo tempo a interioridade e o destino do seu tempo, caminha sobre o fio da navalha. Não será demais destacar que Paz, ao fazer isto, o faz como faz aqui, de maneira egocêntrica, incômoda, sem medos, com valentia, leal às suas manias e a suas simpatias e perseverante em suas diferenças. Que o tenha feito como um homem bem nascido e b em plantado, intransigente em seus desprezos e militante em suas defesas, enxovalhado pelas calúnias reiteradas, comovido por suas desilusões e suspenso por suas convicções. Em um continente como o latino-americano, acanalhado pelas mentiras e sabotado pelas cumplicidades de casta, foi uma bênção que alguém dissesse, com quase oitenta anos de vida, e à sombra venerável de Montaigne: "Este sou eu". Tradução Anna Capovilla

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