Leia a repercussão da morte do cartunista Glauco

Desenhistas falam da perda; Lula, Serra e diretor de redação da 'Folha' também lamentam tragédia

Gabriel Vituri e Teresa Ribeiro, do estadao.com.br,

12 de março de 2010 | 11h17

 

 

SÃO PAULO - A morte de Glauco Villas-Boas, cartunista desde a década de 70, marca o fim de uma carreira acompanhada por muitos, que durante décadas influenciou cartunistas, chargistas e ilustradores de todo o País. Descrito como irreverente e dono de um humor refinado e inabalável, Glauco criou personagens emblemáticos como "Geraldão", um solteirão de 30 anos que ainda mora com a mãe, "Netão", criado especialmente para a Internet, "Ficadinha", uma adolescente dos dias de hoje, adepta das “ficadas” e do sexo casual, entre tantos outros. 

 

Um dos trabalhos mais marcantes do cartunista foi o grupo Los Três Amigos. Criado em 1991 por Angeli, Laerte e Glauco, a tirinha narrava as aventuras de um trio de amigos no velho México. Os personagens eram caricaturas dos próprios autores e se chamavam Angel Villa, Laerton e Glauquito. Mais tarde, em 1994, surge um quarto amigo, inspirado no cartunista Adão Iturrusgarai.

 

 

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Leia a repercussão sobre a morte do artista:

 

 

Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República -  Para o presidente, a morte do cartunista foi uma "tremenda" perda. "Glauco foi um grande cronista da sociedade brasileira, entendia os usos e costumes da nossa gente e expressava isso com inteligência e humor", afirmou o presidente.

 

José Serra, governador de São Paulo - Serra também divulgou uma nota lamentando a morte precoce e se referindo ao cartunista como um "crítico dos usos e costumes". Para Serra, Glauco era "dono de um traço caligráfico e criou toda uma galeria de personagens, alguns tão familiares que são hoje parte do nosso cotidiano nas "tirinhas" dos jornais. Era um crítico dos usos e costumes do nosso país sem perder a leveza e o humor tão brasileiro de seu desenho", analisou o governador paulistano, expressando suas condolências à família, amigos e fãs.

 

Juca Ferreira, ministro da Cultura - "Glauco encarnava uma soma de qualidades tão rara a ponto de parecer ficcional", disse o ministro. E apontou: "o anarquismo explosivo que marcava os personagens - desenhados num cubismo aparentemente simples; a doçura no trato com as pessoas; e a condição de fundador de uma igreja do Santo Daime". Segundo Ferreira, essa sua natureza se choca com a morte violenta dele e do filho "pelo que transmito meu abraço de conforto à família e aos amigos", disse em comunicado divulgado à imprensa.

 

Otavio Frias Filho, diretor de redação da Folha de S. Paulo -  Otavio Frias Filho, lamentou na manhã desta sexta-feira, 12, a morte do cartunista: "Glauco foi um grande artista e um ser humano admirável. Sua obra ficará na memória das gerações que amaram seus desenhos e no traço dos muitos artistas jovens que sua imaginação influenciou. Era uma pessoa que tinha a doçura de uma criança e a serenidade de um sábio. Sua morte e a de seu filho Raoni são motivo de profunda tristeza, especialmente na Folha, casa profissional do cartunista há mais de três décadas".  

 

 

 

Última tira de Glauco, publicada na Folha de S. Paulo

 

Mauricio de Sousa, cartunista - Em comunicado distribuído por e-mail, Mauricio de Sousa diz "como eu disse no primeiro momento, no Twitter, o fato é tão chocante que nossa reação não pode ser medida em palavras, mas em um sentimento de dor, luto e desespeança.

Apesar disso, nós sairemos do choque. E vamos encontrar caminhos, mesmo que sejam longos, demorados, para contermos essa onda de irracionalidade e desumanidade. Famílias bem formadas, educação, fé em Deus, justiça social serão alguns dos pontos por onde passará o caminho do respeito à vida. Vamos lutar para isso. Como tributo ao Glauco e ao Raoni."

 

Adão Iturrusgarai -  O cartunista gaúcho, que mora há um ano e meio na Patagônia, comenta que não via Glauco há tempos, mas, durante o período em que esteve em São Paulo, de 1994 a 2000, relembra como eram os encontros dos ‘três amigos’. “O Glauco faltava muito nos nossos compromissos, mas os encontros eram muito densos. A imagem que tenho dele é muito forte”, conta. Os traços do desenhista são muito marcantes e autorais, “quase uma caligrafia, uma assinatura”.

 

Adão afirma que considera o trabalho uma grande inovação para o humor brasileiro; segundo ele, quando a ditadura já estava um pouco ultrapassada e os cartunistas ainda “estavam naquela de general”, o Glauco apareceu e quebrou essa tendência, tirando sarro.

 

“Pessoalmente, ele era uma pessoa muito doce, muito engraçada”. Com personagens cubistas, de traços diferenciados, Glauco priorizou o humor e ensinou muitos outros cartunistas. Adão resume: “Ele foi um dos precursores do humor rocknroll gráfico brasileiro”

 

Baptistão  - Eduardo Baptistão, ilustrador do Estado,  recebeu com surpresa a notícia do assassinato de Glauco. “É muito contrastante o humor dele, a visão leve da vida que ele tinha, com um fim trágico assim”, lamenta Baptistão.

 

Para o ilustrador, Glauco pertence a uma geração pós-Pasquim, e conseguiu firmar a função de cartunista no Brasil: “Ele aproximou as tirinhas dos leitores”, explica. Segundo ele, junto com Laerte e Angeli, o cartunista conseguiu fazer um trabalho diferente do que existia até então, e embora o estilo dos ‘três amigos’ se complementasse, Glauco criava traços totalmente anárquicos.

 

Glauco era puro humor, tanto no traço quanto na abordagem.  “É um clichê, mas vai ficar uma lacuna, um espaço em branco, onde tanta gente já estava acostumada a ver os trabalhos dele”, lamenta o ilustrador.

 

Diogo Salles, chargista do Jornal da Tarde - Diogo Salles não tem dúvida: Glauco foi influência para qualquer cartunista, principalmente para os que cresceram nos anos 80. Embora não o conheça pessoalmente, Diogo não hesita em afirmar que o cartunista tinha um olhar diferenciado. “É muito fácil identificar os traços dele, e as ideias são sempre tão originais”, afirma.

 

Além disso, Diogo ressalta um lado de Glauco que, segundo ele, nunca é tão lembrado quanto o Glauco das tirinhas. “Ele conseguiu sintetizar muita informação em uma única charge, sem precisar de tanta pesquisa”.

 

Para ele, Glauco conseguia extrair humor de tudo, de qualquer situação, por mais tristes que elas fossem. Assim como todos os outros, Diogo não acredita: “É triste ver uma estupidez como essa”.

 

Salão Internacional de Humor de Piracicaba - O Conselho Consultivo do Salão divulgou nota afirmando que com a morte de Glauco Villas Boas, "o Brasil e o mundo perdem um de seus maiores cartunistas", e questiona autoridades a respeito da violência urbana. De acordo com o comunicado, foi na 4ª edição do Salão Internacional de Humor de Piracicaba, em 1977, que o cartunista ganhou projeção, ao conquistar um dos prêmios. "Com seu imenso talento, criatividade, estilo único e, em especial, humor inteligente baseado no comportamento da nossa sociedade, que Glauco saltou, ainda no mesmo ano, para as páginas da 'Folha de S.Paulo'."  

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