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'A Segunda Escola Vienense', ensaio de Roberto Schnorrenberg, publicado em 6.9.1958

28 de maio de 2010 | 16h37

SÃO PAULO - Publicação de ensaio do musicólogo austríaco Hans Ferdinnd Redlich colocou o autor de 'Wozzeck' em destaque no caderno

 

Apesar da importância da assim chamada "segunda escola vienense", que reune Schonberg, Berg e Webern, e dois livros dedicados à personalidade e obra do primeiro citado, faltou-nos, até há pouco, trabalhos completos e minuciosos que avaliassem Berg e Webern como homens e como compositores. Era nos facultado informarmo-nos a respeito deste ou daquele aspecto particular da vida e atividade desses compositores, ou através de numerosissimos artigos e monografias, geralmente, porém, de dificil obtenção, ou endereçando-nos às grandes enciclopedias musicais, necessariamente limitadas em seu escopo.

 

Entretanto, com "Alban Berg, o homem e sua música", de H. F. Redlich, é um estudo completo sobre Webern de cuja preparação temos noticias, parece-nos ultimamente a situação em sensivel melhoria.

 

Hans Ferdinand Redlich, nascido em Viena em 1903, tem tido uma carreira de musicologo e regente de grande repercussão. Ligado pela posição de sua familia (seu pai Joseph Redlich era amplamente conhecido como autor e professor, tendo atingido o cargo de Ministro das Finanças da Australia) às grandes figuras musicais vienenses da primeira parte deste seculo, publicou seu primeiro opusculo - uma monografia sobre Mahler - aos 16 anos. Estudante nas universidades de Viena, Munich e Frankfurt, defendeu tese de Doutor em Filosofia. Regente em Berlim e Mainz apresentou "Wozzeck" pela primeira vez em Manheim em 1932.

 

Emigrando para a Inglaterra em 1939 - naturalizado inglês em 1947 - Redlich desenvolveu e desenvolve uma grande atividade no seu país de adoção. Além de reger opera em Londres, fundar sociedades musicais e ensinar musicologia nas universidades de Cambridge e Birmingham - e desde 1935 na universidade de Edinburgh onde é titular de uma catedra especial de historia da musica - encontrou tempo de publicar varios livros e edições de musica antiga. De grande diversidade de interesses, escreve com igual facilidade e conhecimento sobre Monteverdi e Alban Berg, embora quase todos seus livros tenham causados serias controversias entre os musicologos profissionais.

 

A versão inglesa que recebemos, publicada em 1957, é ao mesmo tempo uma condensação e uma ampliação da versão alemã, "Alban Berg, Versuch einer Wurdigung", pouco mais antiga. Para proveito dos leitores ingleses (e não-germanicos em geral) ensaios sobre Buchrer e Wedkind, relativamente pouco conhecidos fora da Europa Central, foram inseridos.

 

A organização do livro é simples: uma pequena introdução sobre a segunda escola vienense e sobre a tecnica dodecafonica, um exame bastante detalhado da obra musical, uma curta parte biografica e a serie de apendices de praxe; bibliografia, discografia, documentos e uma peça de juventude de Berg em "fac-simile".

 

Como na maioria das obras de Redlich o livro é desigual. Ao lado de capitulos e paragrafos de grande interesse, tem-se por vezes a impressão de um trabalho apressado e desorganizado. A mesma informação ocorre varias vezes. Pessoas e fotos são arbitrariamente introduzidos e abandonados, a propria parte tecnica não é sempre impecavel, ocorrendo mesmo alguns erros tipograficos crassos. (Citação - pg. 242 - da morte de Berg em 24 de setembro de 1935 etc.)

 

Os dados biograficos de Alban Berg nada têm de extraordinario. Nascido em 1885, de prospera familia burguesa, cuja atmosfera musical o estimulou rapidamente, o fator preponderante de sua evolução artistica foi seu encontro em 1904 e seus estudos subsequentes com Schoenberg até 1910. Além de adquirir a mestria tecnica necessaria a seus projetos, sua vida interior foi completamente modificada através da influencia de Schoenberg. O rapaz sensivel e sonhador transformou-se num homem e artista consciente e serio. Esta evolução psicologica, que necessitaria de um longo e profundo estudo, é tratada superficialmente por Redlich apesar de sua indiscutivel importancia, principalmente no que se refere à propria evolução musical do compositor. Financeiramente independente a partir de 1906, casou-se em 1911, dedicando-se então inteiramente à musica, apesar de arruinado pela primeira guerra mundial. Sua vida manteve-se num ritmo pacato e simples, manifestando-se sua influencia pelo sucesso de "Wozzeck" e por sua intensa atividade de professor, incluindo-se entre os seus alunos importantes personalidades de hoje como Josef Rufer, Hanns Jelinek, H. E. Apostel, Bruno Seidlhofer e T. W. Adorno. Profundamente deprimido pelos acontecimentos alemães de 1933 e pela emigração de Schoenberg, dedicou-se à composição da opera "Lulu", que permaneceu inacabada, interrompendo esse trabalho somente sob a influencia da morte de Manon Gropius, filha da viuva de Mahler, à memoria de quem dedicou o concerto para violino, composto - ao contrario de seus metodos habituais - em pouco tempo. Assim como no caso de Mozart, esse "Requiem à memoria de um anjo" serviu também ao proprio compositor que faleceu das consequencias de um furunculo infeccioso na vespera do Natal de 1935.

 

Alban Berg - de saude delicada e atormentado por preocupações economias - não foi um compositor prolifico. O numero de suas obras não excede duas dezenas. Dessas as duas mais conhecidas são "Wozzeck" e o concerto para violino.

 

A opera "Wozzeck" - terminada em 1921 - representa um extraordinario "tour de force". O proprio Berg adaptou o fragmento dramatico do poeta e dramaturgo alemão Georg Buchner (1813-1837), assegurando a unidade dramatica indispensavel a uma opera.

 

A composição, precedendo à elaboração da tecnica dos doze sons, revelou, de inicio, um grave problema de unidade musical, claramente exposto pelo proprio Berg numa conferencia de 1929: "Quando me decidi a compor uma opera confrontei-me com um novo problema, pelo menos do ponto de vista harmonico: como conseguir a mesma coesão e unificação estrutural sem o uso da "Tonalidade" aceita até então e de suas possibilidades de organização formal, coesão não somente nas cenas menores, como em atos inteiros e na estrutura geral da opera?".

 

O problema foi resolvido por uma aplicação unica e rigorosa das formas musicais tradicionais e que resumimos no quadro que se encontra no centro deste artigo. É também muito significativa a seguinte passagem do proprio Berg: "A partir do momento em que é levantada a cortina até que caia pela ultima vez, não deve haver uma só pessoa no publico que se dê conta destas varias fugas e invenções, sonatas e suites, passacaglias e variações mas somente pessoas convencidas do ideal desta opera, que transcende o destino individual de "Wozzeck". Nisto creio ter tido exito". ("Pro-Domo" - 1928).

 

Por sua vez, o concerto para violino exemplifica, com a introdução de uma canção folclorica e do Coral "Es ist genug" de Bach, o surpreendente dom de Berg de unir em sua musica elementos tradicionais e revolucionarios, mantendo uma excepcional continuidade com a grande tradição vienense.

 

Tornou-se um pouco moda, entre alguns jovens musicos, depois da segunda guerra mundial, menosprezar a obra de Alban Berg, em parte por essa quase nostalgica preservação de elementos tradicionais. Essa moda felizmente está desaparecendo diante da evidencia do genio criador, do senso dramatico e da densidade excepcional de sua musica. No sentido de uma maior divulgação do compositor, o livro de Redlich vem preencher uma lacuna - enquanto se espera um trabalho definitivo sobre essa figura poetica e dramatica da musica contemporanea.

 

Roberto Schnorrenberg - Paulista, ele costumava ser chamado de músico-enciclopédia. Nascido em 1928, estudou no Mozarteum de Salzburg, foi aluno de H.J. Koellreutter e tornou-se um dos maiores representantes da dodecafonia (a estética de Berg) no País. Dono de uma extraordinária biblioteca musical, ocupou o posto de regente da Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo. Morreu em 1983.

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