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Leia a íntegra da entrevista com o filósofo francês Luc Ferry e o artigo de Regina Schöpke sobre 'Diderot'

ÍNTEGRA DA ENTREVISTA COM O FILÓSOFO FRANCÊS LUC FERRY, POR ANDREI NETTO

08 de junho de 2012 | 18h54

O senhor refletia sobre o livro há muito tempo, até 40 anos. Por que se trata de uma obra tão pessoal e importante?

Eu me sinto como se estivéssemos entre amigos, ao fogo de uma lareira na serra. Sim, este livro é de longe o mais importante a meu ver entre todos os que escrevi. É o primeiro que no qual eu emprego minha própria filosofia, minha análise do tempo presente, que me parece caracterizado por três grandes traços: a desconstrução dos valores tradicionais, a emergência da globalização liberal e o nascimento do casamento por amor e da família moderna. Estes três traços são ligados entre eles, e formam uma paisagem coerente. É nesta paisagem que nossas vidas vão tomar sentido. Sim, também é verdade que se trata de um livro de toda uma vida.

Sobre A Revolução do Amor, comecemos por sua ideia de base: algo de revolucionário teria acontecido há alguns séculos: a invenção do casamento por amor na Europa. Qual é a amplitude desta revolução?

É imensa! O que eu chamo de "revolução do amor" é o nascimento da família moderna, ou seja, a passagem do casamento arranjado pelos pais e pelos vilarejos, ao casamento escolhido livremente pelos jovens imbuídos de amor. Esta revolução na vida privada chacoalhou nossas existências. Ela aportou um novo princípio de sentido, que exige uma nova filosofia. Mas, ao contrário do que poderíamos crer, ela não chacoalha apenas nossas existências privadas, mas toda a nossa relação com a coletividade. É o que eu chamo de "segundo humanismo". O primeiro foi o humanismo da lei e da razão. Era o do Iluminismo e dos direitos humanos, dos Republicanos franceses e de Kant. O segundo humanismo é um humanismo da fraternidade e da simpatia. Minha convicção é que existe desde então uma única visão do mundo movida por este sopro de uma utopia possível. Porque o ideal que ela visa a realizar não é o dos nacionalismos, nem as ideias revolucionárias. Não se trata mais de organizar os grandes massacres em nome de princípios mortíferos que se acreditava serem exteriores e superiores à humanidade, mas de preparar o futuro para os que nós amamos mais, o das gerações futuras.

Essa revolução produziu efeitos sobre a arte e a moral, mas há efeitos ainda em progresso, como a evolução da condição da mulher e dos homossexuais, por exemplo. Quais são os indícios desta revolução hoje?

Antes de mais nada, é preciso dizer que esta revolução do casamento de amor, escolhido e não imposto, começa na Europa e depois se estende a todo o mundo cultural ocidental. Isso quer dizer que no resto do mundo o casamento tradicional, imposto pelos pais e pelos vilarejos continua a ser a regra. No Ocidente, nós temos vivido desde o século 20 uma formidável desconstrução dos valores tradicionais. Ela às vezes teve efeitos negativos, em especial na escola, mas também formidavelmente positivos, em especial para os homossexuais e para as mulheres. Observe que em um país como a Suíça, no coração da Europa, o último cantão a conceder o direito de voto às mulheres o fez, pense bem, em 29 de abril de 1991! Isso quer dizer que, até então, as mulheres ainda eram vistas como crianças. Na França, foi um pouco mais cedo, mas, enfim, foi preciso esperar o fim da Segunda Guerra Mundial para que as mulheres tivessem o direito de voto. Quanto aos homossexuais, lembre-se o que a Organização Mundial da Saúde (OMS) definia a homossexualidade como uma doença até 1990! Sim, nosso mundo ocidental mudou mais nos 50 anos da segunda metade do século 20 do que nos 500 anos anteriores! E eu não falo nem mesmo das revoluções científicas, da genética, do digital, etc.

Falemos sobre a destruição dos valores tradicionais. No seu entender, parte desse processo vem do fato de que as ideias não merecem mais sacrifício, só o humano. É isso o retorno da "sacralização", do reencantamento do mundo?

Como a "consciência infeliz" da qual falava Hegel, nós temos sempre a tendência de nos dar conta na história do que se destrói e morre, quase nunca do que surge, toma forma e vida. Logo, temos uma propensão ao pessimismo, propensão tão forte que dá asas ao pensamento negativo. Ao contrário do otimismo, sempre um pouco simplório, ele confere à primeira vista uma presunção de inteligência. Às vésperas do século 21, é verdade, a maior parte dos valores tradicionais, em especial a nação de direito e a revolução de esquerda, desmoronaram, ao menos na Europa. Logo, devemos constatar, pelo menos na Europa, que os motivos tradicionais do sacrifício coletivo, violento e maciço, foram liquidados. Quem desejaria nos dias de hoje, ao menos nos países que vivem da cultura europeia, morrer por Deus, pela pátria ou pela revolução? Não muita gente, ou pelo menos mil vezes menos do que no início do último século. Mas, ao encontro da morosidade ambiente, eu defendo que esta é uma grande notícia, não do século, mas do milênio. Champanhe! No que diz respeito às guerras nacionalistas, como eu poderia lamentar, eu que estudei na Alemanha, o tempo em que meu pai atacava meus professores (e reciprocamente)? Quanto às estupidezes mortíferas do maoismo, com suas dezenas de milhões de mortos em condições atrozes, quem, fora alguns intelectuais senis corroídos pelo desejo de se pretender interessante, poderia não se felicitar da sua liquidação?

Isso não quer dizer que nós vivemos a era do desencantamento do mundo? Há mesmo lugar ainda, hoje, para alguma espiritualidade?

Não creio nisso que vivamos uma era do desencantamento do mundo. Aí está até mesmo a ilusão arquetipal desta consciência infeliz que adora tanto não adorar. O que nós vivemos não é de forma alguma a liquidação do sagrado, o eclipse dos valores (da espiritualidade), mas sua encarnação em nova face, a da humanidade. Questione-se honestamente: por quem ou pelo que você estaria pronto a arriscar sua vida? Em outros termos, o que você considera sagrado no sentido próprio, como digno de sacrifício? A resposta para a imensa maior parte seria: é o homem que é sagrado, o próximo, mas também o seu contrário, o seguinte. Em todo caso, não são as abstrações vazias da religião e da política tradicionais. Vivemos o nascimento de uma nova face do humanismo, que não é mais aquele de Voltaire e Kant, dos direitos do homem e da razão, desses iluminismos que portaram, é verdade, um vasto projeto de emancipação, mas que conduziram também ao imperialismo e à colonização. Trata-se, ao contrário, de um humanismo pós-colonial e pós-metafísico, da transcendência do outro e do amor. Precisaremos, então, dessas novas categorias filosóficas (uma espiritualidade sem Deus) para refletir sobre suas armadilhas e perspectivas.

O senhor diz que a globalização tem um papel na desconstrução dos valores. Estamos na era do consumo de massa e da economia global, o que gera um impacto social e altera nossa maneira de ver o mundo, certo?

Sim, é isso. O verdadeiro motor da desconstrução dos valores tradicionais foi o capitalismo moderno. Marx já tinha compreendido isso de forma genial quando dizia que o capitalismo era a revolução permanente. Por quê? Porque a competição, sobretudo quando é mundial, leva inevitavelmente à lógica da inovação permanente, da inovação pela inovação. Uma empresa que não inova o tempo todo está fadada a morrer. Mas há mais do que isso. Os que desconstruíram os valores tradicionais no século 20 eram com frequência de esquerda, mais ou menos boêmios ou anarquistas, como em Maio de 68. A verdade do século é que esta grande desconstrução serviu aos interesses do capitalismo.

Fale mais sobre isso.

Foi necessário que os valores e as autoridades tradicionais fossem desconstruídas pelos boêmios, pelos jovens de cabelos longos, libertários, anarquistas, republicanos e antiburgueses para que o capitalismo, ele também moderno e fadado à inovação pela inovação, pudesse fazer entrar nossos filhos na era do grande consumo de massa sem o qual seu enfraquecimento e seu futuro globalizado simplesmente não teriam sido possíveis. Eis o que me parece uma das verdades mais profundas do século passado, verdade que vai crescer no século que está aí. Se nossos filhos tivessem os mesmos valores que nossos avós, eles não comprariam um telefone celular por ano, ou um MP3, ou um novo videogame. Do contrário, se nossos antepassados pudessem ver um grande centro comercial ao estilo americano, eles acharia provavelmente que estes novos templos edificados ao deus do consumo escoam besteiras e obscenidades. Eles talvez pensassem que estas bugigangas absurdas que transbordam das vitrines nós distanciam dos verdadeiros valores, como os deveres em relação ao próximo, mas também em relação a si mesmo. Logo, foi necessário que as visões tradicionais do mundo fossem desconstruídas totalmente para que, enfim livre dos velhos freios, nós pudéssemos nos consagrar ao consumo sem complexos, ao menos no limite de nosso poder de compra.

Sua ideia de reencantamento é um paradoxo à de Max Weber, que falava no início do século 20 do desencantamento do mundo. Minha questão é: o reencantamento é só positivo, ou também tem sua "parte do diabo"?

Você tem razão, há uma verdadeira parte do diabo. Não sou ingênuo. Quando eu falo da revolução do casamento escolhido, do casamento do amor em nossas vidas, não quero dizer que nós entramos no mundo ideal, no qual todo mundo se ama, ou todo mundo é bonito e gentil. Antes de mais nada, porque o reverso da medalha do amor, é o ódio. Não há rosas sem espinhos, nem amor sem ódio. Além disso, o amor dos seus, dos próximos, pode levar a um egoísmo louco. Nós estaríamos prontos a tudo pelo sucesso de nossos filhos, inclusive a sacrificar o dos outros. Tudo isso é verdade. Mas também é verdade que o amor que dá sentido a nossas vidas não é mais o amor pela nação, nem pela revolução. A questão que as gerações futuras vão definir, como os ecologistas já compreenderam, é cada vez mais crucial: que mundo vamos deixar a nossos filhos? Eis essa nova e grande questão política não diz respeito só à ecologia, mas à dívida pública, ao futuro da proteção social na época da globalização, à regulação financeira ou ao choque de civilizações. Não é porque o amor dá sentido a nossas vidas que os problemas desaparecem. Mas nós podemos observá-los em uma perspectiva de sentido novo, em relação às gerações futuras.

Quando falamos em um mundo no qual o casamento de amor está no centro de uma revolução, como devemos ver as civilizações em que o casamento ainda é determinado por interesses financeiros, políticos ou diplomáticos?

Sem defender o eurocentrismo, é preciso reconhecer que nosso velho continente inventou algo de único e de precioso, de singular e de grandioso: uma cultura da autonomia dos indivíduos como nenhuma outra, uma exigência de pensar por si mesmo, de sair dessa "menoridade" infantil - como dizia Kant sobre o Iluminismo - mantida por todas as civilizações religiosas, todas as teocracias e todos os regimes autoritários. Este movimento caminha em direção à autonomia, como aconteceu primeiro com a arte, desde o século 17, quando ela deixou de ser exclusivamente religiosa, depois se infiltrou em toda a civilização europeia, da filosofia, racionalista, à política, laica e democrática, passando pela ciência, hostil aos dogmatismos clericais, e pela vida privada, quando o casamento decidido pelo amor substitui o casamento racional imposto pelos pais e pelos vilarejos. Este é o gênio da Europa que acabaria por si mesmo por abolir a escravidão e a colonização, por se desfazer dos totalitarismos e por abolir a escravidão e a colonização, por se desfazer dos totalitarismos e, enfim, reconhecer a alteridade. Nada, nesta valorização da civilização europeia, implica o menor racismo, a menor tendência neocolonial. Outras civilizações são igualmente grandiosas, mas sim, é inegável, a civilização europeia inventou a autonomia política, como a democracia, assim como a autonomia privada, como o casamento por amor e a família escolhida. E, francamente, como não se apegar a isso?

O senhor diz que o sagrado reencarna na cultura ocidental. Mas e as revoluções no mundo árabe, marcada por princípios modernos, como a liberdade e a democracia? Devemos esperar um dia uma nova onda de revoluções? A dinâmica do Ocidente é válida para todo o mundo?

Sim, eu estou convencido disso. As revoluções árabes, embora corram o risco de serem apropriadas pelo islamismo radical, são apesar de tudo uma novidade magnífica. Observe como o mundo evoluiu nos últimos 50 anos. Quando eu era criança, a velha Europa estava tomada por ditaduras. Franco ainda era vivo, a revolução dos cravos em Portugal não tinha acontecido e a Grécia ainda sofria o regime fascista dos coronéis! A Rússia e os países do leste viviam na pior tirania, e a América Latina estava povoada de ditaduras. Tudo isso mudou para melhor, e apesar do delírio pessimista que reina hoje, esta é a verdade. Mesmo a China é cem vezes mais democrática do que no tempo de Mao e da Revolução Cultural que deixou 70 milhões de mortos em circunstâncias atrozes. O paradoxo é: nós vamos viver um declínio econômico e social na Europa, mas ao mesmo tempo uma formidável vitória dos valores da democracia europeia. Estou certo que, como aconteceu aqui, um "segundo humanismo" vai se seguir ao primeiro.

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ARTIGO: ILUMINISTA CONTRA AS TREVAS DO ESPÍRITO

Resultado de 30 anos de estudos, biografia monumental reconstrói a vida do filósofo de espírito combativo

por REGINA SCHÖPKE

Houve um tempo, não muito distante, em que os filósofos acreditavam profundamente no poder da razão e, mais ainda, no poder do homem modificar verdadeiramente as condições de sua existência. Talvez o correto fosse simplesmente afirmar que houve uma época em que os filósofos acreditavam mais na própria filosofia - tal como os antigos gregos, que a criaram para enfrentar os abusos de poder do mundo mágico-religioso e de seus “mestres da verdade”.

Estamos falando aqui do século 18, que, independentemente do que se diga, é profundamente essencial para a construção e compreensão do mundo contemporâneo. Afinal, a luta dos filósofos chamados de iluministas está na origem de uma das transformações sociais mais radicais de todos os tempos, que se deu, para o bem e para o mal, com a Revolução Francesa. Para o bem, porque era impossível aceitar as condições de miséria e exploração em que vivia o povo; para o mal, porque nenhum filósofo iluminista provavelmente ficaria satisfeito com os desdobramentos da dita revolução que ansiava pela “liberdade igualdade e fraternidade”.

Seja como for, o Iluminismo não foi um movimento intelectual entre outros. De certa maneira, ele foi algo que extrapolou os limites da língua, dos territórios e até mesmo das classes sociais. Pode-se dizer que os iluministas eram uma espécie de “grande família”, cujos membros se espalhavam por vários cantos da Europa e especialmente na França, com Voltaire, D’Alembert, Rousseau, Barão de Holbach, Diderot, etc. O elo que os ligava era, mais do que uma crença, uma certeza: a de que alguns valores humanos são eternos, ainda que não existam por si mesmos. “Eternos” porque, sem eles, o próprio sonho de ser homem perde o seu sentido.

Kant, uma das personalidades mais ilustres do iluminismo alemão, deixou-nos uma das melhores definições desse movimento. Para ele, o Iluminismo representava a emancipação do homem da tutela que ele próprio impôs a si, ao se deixar dominar pelos outros e não por sua própria razão. “Faça uso da tua razão!”: eis o lema do Iluminismo para Kant.

Entre os franceses, a questão era a mesma. No entanto, a ênfase no social e no político soava bem mais forte. Não era por outro motivo que Voltaire achava inútil qualquer querela metafísica, sem falar em Diderot, cujo percurso filosófico foi marcado por uma clara e corajosa mudança de perspectiva, em que o filósofo deísta vai aos poucos se tornando mais cético e reflexivo, a ponto de aproximar-se mais dos materialistas de seu tempo (algo que o levou à prisão e lhe valeu uma crítica do próprio Voltaire, que via no materialismo ateísta um perigo para a sociedade - que, para ele, precisava da ideia de Deus como sustentáculo dos valores morais).

Diderot não compartilhava desta prevenção com relação aos ateístas (entre os quais, aliás, dizia se sentir muito bem), mas o canto de Voltaire atingiu notas mais altas e ressoou com mais intensidade na “eternidade”. Isto, porém, não impediu que outros cantos também ecoassem, como o do próprio Diderot, que amava a ficção e o teatro e que dizia que “era tão arriscado acreditar em tudo como não acreditar em nada” e que “a superstição ofende mais a Deus do que o ateísmo”. É exatamente essa voz menos “divina” e talvez, por conta disso, também menos dogmática, que chega até nós por intermédio de Arthur M. Wilson, em seu monumental Diderot.

Considerada a mais completa e confiável biografia deste filósofo, o livro de Wilson tem como fonte principal os documentos do próprio Diderot (suas obras e sua vasta correspondência). É assim que o professor emérito da Dartmougt College reconstrói a vida de seu personagem numa narrativa instigante, recheada com citações do próprio filósofo. Sem dúvida, é por ser uma reconstrução que ela não deixa de ser também uma criação - no melhor sentido da palavra, já que é impossível capturar inteiramente as nuances e os devires do instante vivido. Ao biógrafo, no fundo, cabe a tarefa nada pequena de ligar os pontos (os momentos sempre fugidios) dispersos no tempo, de modo a produzir uma malha de acontecimentos e sentimentos que faça sentido. E isso, sem dúvida, Wilson fez com perfeição, seja mostrando o lado de um pai afetuoso e preocupado com a educação da filha ou o do homem magoado com as leviandades da amante; seja revelando a relação um tanto fria com Voltaire ou os detalhes da amizade, posteriormente rompida, com Rousseau - enfim, expondo os percalços, alegrias e angústias deste homem de espírito combativo e apaixonado (por vezes, até inflamado) que aprendeu a lidar com o mundo, e sem ser corrompido por ele.

Esta obra, resultado de mais de 30 anos de pesquisas e estudos, atesta a paixão de Arthur Wilson pelo filósofo, mas também pelo próprio Iluminismo, que tanto influenciou o espírito norte-americano em sua luta pela liberdade. Afinal, como disse Voltaire, em uma carta a Diderot: “Nossa divisa é: sem quartel aos supersticiosos, aos fanáticos, aos ignorantes, aos loucos, aos perversos e aos tiranos... ou será que nos chamamos de filósofos para nada?”

Pois bem, falar do Iluminismo é falar de filósofos e livres-pensadores, de homens que pensam por si, que fazem “uso de sua razão” e que, por isso mesmo, nem sempre concordam em tudo, embora jamais deixem de concordar que é necessário empreender uma luta sem trégua contra as trevas do espírito, contra a ignorância, as superstições, os preconceitos, os dogmas e tudo o que fere a razão e o bom senso (o que, no fundo, continua sendo a grande meta da filosofia, a despeito do descrédito atual da razão e do espírito crítico). O melhor aspecto deste livro, entretanto, é a desmistificação do caráter destes apologistas da razão. Afinal, longe de defenderem uma razão fria e insensível, Diderot e seus colegas iluministas têm apenas consciência de que o homem deve ser governado pela razão, e não por seus medos, desejos e paixões... Na verdade, a sensualidade e as paixões jamais foram negadas por Diderot (que, inclusive, as viveu com intensidade). Afinal, como ele próprio disse: “A razão sem paixões seria quase um rei sem súditos.”

Sem dúvida, os iluministas são devedores de Locke e Espinosa, mas sua filiação vai ainda mais longe, até Epicuro e Lucrécio. Afinal, muitos séculos antes dos iluministas, eles já diziam que as crenças cegas e as superstições nascem da ignorância das leis naturais, da incompreensão da natureza, e que essa é a forma de manter os homens fracos e covardes. Aliás, esta é a forma da tirania triunfar, como afirmaram Espinosa e o próprio Diderot. Por isso mesmo, o grande empreendimento de Diderot foi - juntamente com D’Alembert - editar a tão conhecida Enciclopédia, o mais precioso instrumento de divulgação das ideias iluministas. Afinal, como bem nos mostra Wilson, Diderot acreditava no poder do conhecimento para dissolver os erros e os preconceitos, e não é por outra razão que a Enciclopédia tinha como ambição maior reunir todo o saber humano em milhares de verbetes escritos por filósofos e sábios de todas as áreas. Esse trabalho, que durou mais de 20 anos, mudou para sempre a história e a feição do conhecimento humano.

Pois bem, repleta de revelações curiosas sobre a vida social e intelectual do século 18, essa biografia tem também o mérito de mostrar algo que, em tese, é óbvio, embora não para todos: que os filósofos são seres humanos, sujeitos a fraquezas e defeitos inerentes a esta condição. Contudo, é o que eles têm de magnânimo, de grandioso, que precisa ser exaltado, que precisa servir de exemplo, porque enquanto a maior parte dos homens vive apenas para os seus próprios interesses e prazeres, alguns escrevem com o seu próprio sangue e espírito as páginas mais sublimes da história humana.

                                                                                   

REGINA SCHÖPKE É FILÓSOFA E MEDIEVALISTA, AUTORA DE MATÉRIA EM MOVIMENTO E DICIONÁRIO FILOSÓFICO (MARTINS FONTES)

FICHA TÉCNICA DO LIVRO DIDEROT

Autor: Arthur M. Wilson

Tradução: Bruna Torlay

Editora: Perspectiva

(1.024 págs., R$ 180)

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Luc FerryA Revolução do Amor

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