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Leia a íntegra da entrevista com a escritora Reyes Monforte

Autora diz que não pediu autorização para Maria José Carrascosa, personagem retratada em 'Amor Cruel', que acaba de ser lançado no Brasil

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S.Paulo

30 Janeiro 2012 | 08h44

Como surgiu a ideia do livro?

Quando vi a notícia na imprensa espanhola, me chamou a atenção. Parecia uma história de cinema: uma mulher jovem, moderna, inteligente, advogada, vivendo um sonho pessoal e profissional no país que tanto idealizava e de repente tudo vem abaixo e seu sonho se converte em pesadelo. Dos últimos anos de sua vida, a única verdade parece ser sua filha de 7 anos, por quem ela decide enfrentar seu marido, o sistema judicial americano e a prisão. Pensei que essa história merecia mais do que uma hora de entrevista, como a que fiz no programa de rádio que eu dirigia e apresentava e achei que a história tinha muitos detalhes que mereciam ser contados. E assim o fiz.

Como jornalista, você poderia ter feito um bom livro-reportagem. Por que optou pela ficção?

Amor Cruel é mais realidade do que ficção. É, na verdade, um livro em forma de reportagem ficcional. Usei documentos oficiais, nomes reais, cidades, datas. É mais arriscado porque corre-se o perigo de os protagonistas não ficarem satisfeitos porque você contou mais do que devia ou menos, mas acho que isso é justo com o leitor. Uma vez mais a realidade supera a ficção. Por que recorrer, então, à ficção se a realidade ultrapassa com folga a imaginação mais exagerada? 

Por que manter os nomes e detalhes do processo se este é um livro de ficção?

Queria que a história de Maria Jose ficasse conhecida e que ninguém cogitasse que ela era simplesmente fruto da imaginação da autora. Queria que soubessem que a história é real e que por trás daquela personagem existe uma mulher de carne e osso. Assim, poderiam se mobilizar e se envolver no caso. Pelo que ouvi de leitores, deu certo. 

O que há de ficção em seu livro?

A forma romanceada como ele foi escrito. A história de Amor Cruel é complicada de narrar e fazer chegar ao leitor como uma reportagem. Havia muitos documentos e sentenças judiciais que deveriam ser colocados de maneira simples para que o leitor pudesse compreender sem se perder na linguagem jurídica.

Qual foi seu método de trabalho?

Pesquisei em fontes diversas. Falei com Maria José, sua família, amigos, pessoas que a conheceram na prisão etc. Muitas vezes me encontrei com gente que não quis falar e respeitei a decisão. 

Chegou a falar com Peter Ianni ou seus familiares?

A versão do marido está no livro. Há declarações dele na imprensa espanhola, poucas e sempre as mesmas. Ele optou pela desclassificação, ameaças e insultos e eu preferi focar na história dela mesmo com várias versões. 

Como o caso foi recebido na Espanha?

A população se interessou muito pelo caso, mesmo antes do livro. Mas ele também tem interessado a pessoas de todos os países porque a história é universal, com temas como amor, ódio, família, vergonha e rancor.

Há muita informação a favor e contra Maria José na internet. Por que escolheu o ponto de vista dela? 

Maria José é a vítima e seu lado era o que me interessava. É desmedido que uma mulher, ou qualquer pessoa, viva há seis anos na prisão sem ter matado ou prejudicado ninguém e cuja única ação tenha sido tentar proteger sua filha. É verdade que ela pode não ter escolhido os melhores meios, como sentenciou a justiça americana, mas não se pode esquecer que a justiça espanhola deu razão a ela. O que chama a atenção é como a justiça de dois países encara os fatos de maneira tão diferente. Não me soa muito lógico. Mas no livro estão todas as versões para que o leitor escolha a sua.

Você acredita que tudo seja verdade?

Creio que cada um tem a sua verdade, e me limito a contar os fatos para que cada um tire suas próprias conclusões. Mas de qualquer forma, quando um casamento termina cada uma das partes diz verdades e mentiras que vão a seu fazer e contra o outro. Suponho que isso também tenha acontecido aqui. 

Em uma entrevista ao El País, Maria José disse que não havia autorizado a publicação do livro e que processaria a autora e a editora. Como você recebeu a notícia? 

Sua história é pública e acompanhada pelos meios de comunicação por muito tempo antes do livro. Não precisamos de autorização dos protagonistas - nem de Maria José, do ex-marido ou da família - embora ela tenho insistido em dar. Eu não pedi a autorização e não precisava dela. Foi a família, inclusive, que me ajudou a ter acesso a toda a documentação do caso. Eu pedi para que me dessem entrevista e eles deram - e sabiam para o que era. Alguns me procuraram para falar e outros optaram por não participar. A história está aí e eu a contei como muitos outros já contaram. E ninguém me processou por isso. 

Ela leu seu livro?

Segundo me disse sua irmã, sim. Mas depois do livro eu não tive mais contato com ela. Nunca mantenho o contato com os protagonistas dos meus livros porque ajuda na objetividade da história.  

Se Peter não se interessava com a família - tanto que a abandonou, por que tanto empenho em destruir a vida da ex-mulher, a ponto de acusá-la de sequestro da própria filha e levar adiante um processo longo que terminaria com a condenação dela e ao abandono, na Espanha, da menina?

Só ele tem essa resposta. Ele nega tudo o tempo todo. Como coloco no livro, ele diz que é tudo mentira, mas aí está a realidade: Maria José está presa e sua filha vive com os avós na Espanha. Se o que querem é a felicidade da menina, ninguém pode estar feliz com o fim da história. Ela e a mãe estão pagando o preço mais alto. Entre o amor e o ódio há um passo. E se todos chegam a fazer tudo por amor, também fazem tudo por ódio. A história da humanidade está repleta de exemplos disso. 

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