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Leia a crítica do livro 'O Céu dos Suicidas', do autor Ricardo Lísia

Escritor se aproxima de sua vocação: a de ser um dos melhores humoristas de sua geração

VINICIUS JATOBÁ , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2012 | 03h08

Ricardo Lísias ainda não sabe, mas a cada livro ele se aproxima mais de sua verdadeira vocação: a de ser um dos mais bem realizados humoristas de sua geração. Há um preconceito declarado contra o humor, como se fosse a mais baixa forma de expressão artística. E muitos bons escritores jamais deram um salto de qualidade essencial por terem se esforçado demais em combater seus talentos de encarar a experiência humana de forma enviesada e cínica. Nada mais contraproducente: Saul Bellow, Thomas Bernhard, Brohumil Hrabal, Gyula Krudy e Guillermo Cabrera Infante foram mestres da literatura universal e geniais humoristas.

O Céu dos Suicidas (Alfaguara) sofre do mesmo problema de O Livro dos Mandarins: levar um material demasiado cômico da maneira mais taciturna possível. Lísias é superaparelhado: seu manejo técnico é fabuloso, e cada frase é temperada e controlada com esmero. Em um momento editorial em que é moda ser escritor causa assombro um autor tão literário como Lísias, que passa a impressão de que cada palavra de seu texto foi ponderada e escolhida por uma razão muito específica. Lísias tem uma habilidade de criar situações narrativas muito criativas, com personagens próprios e incomuns.

O narrador de O Céu dos Suicidas é um colecionador de tampinhas de garrafas e selos. Professor universitário, ele é repleto de manias e rituais. O estopim de sua crise é o suicídio de seu melhor amigo. Ele decide, para lidar com o impacto dessa perda, começar uma nova coleção e viajar para Beirute. É material para uma deliciosa comédia; mas Lísias escreve um relato torturante sobre identidade e culpa.

Percepções. O Céu dos Suicidas é, contudo, um sucesso estético. Para um narrador que vê o mundo por objetos colecionáveis é natural que seu relato seja fragmentado, em pequenas tramas, em que ele coleciona percepções. Ele é incapaz de ver sua própria vida para além do fracionado. E sua viagem é dupla: tanto exterior, para Beirute, em busca de um exotismo que o afaste do sentimento de culpa, quanto é também interior, o narrador em busca de si mesmo, de coesão emocional. O humor de Lísias está sempre encabulado, em potencial, buscando uma forma de se expressar integralmente.

Não precisa pressa. Bellow esperou três livros até se sentir confortável e liberar essa energia; Bernhard levou tempo até conseguir rir de suas próprias misérias e escrever seus melhores livros; Krudy se via como um filósofo até inventar seu personagem mais bonachão, Szyndbad. Se Lísias fizer esse salto, tão marcado em trechos de seus dois livros recente, estará em boa companhia.

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